Oceano de Incertezas
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- A NONA ESQUADRA DO EXÉRCITO LAURENCIANO E A TRAGÉDIA DE AGOSTO DE 25 - PARTE II
Rachel Wall acordou com um grunhido, franzindo sua testa enquanto fortes batidas vinham da porta de seu quarto.
What do we do with a drunken sailor?
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Item nº: SCP-144-PT
Classe de Objeto: Euclídeo
Nível de Ameaça: Amarelo ●
Procedimentos Especiais de Contenção: SCP-144-PT deve ser mantido em uma câmara de contenção para humanoides padrão isolada, na seção de contenção leve do Sítio PT17. A entidade deve ter acesso a quatro refeições diárias, atendimento psicológico semanal e pedidos de objetos de lazer diversos, sob avaliação da Drª Darwish, líder do grupo de pesquisa responsável pelo estudo da anomalia.
Interações com a entidade devem ser feitas remotamente, de forma que o acesso à sua câmara de contenção deve ser mínimo. O sistema de comunicação implementado na câmara de contenção e na sala de observação associada deve ser inspecionado mensalmente, a fim de evitar quaisquer falhas técnicas. Separação entre SCP-144-PT-1 e SCP-144-PT para pesquisa está limitada a três horas semanalmente, para garantir o bem-estar físico da entidade.
Descrição: SCP-144-PT é um ser humano do sexo masculino, apresentando massa de 68 kg, 172 cm de altura e, de acordo com registros oficiais, quarenta e três anos de idade, chamado Ramiro Dathan Vega. Ainda foi determinado que a entidade é natural de Terrassa, Catalunha, Espanha, apesar de ter sido encontrada em Belo Horizonte, MG, Brasil. Notavelmente, SCP-144-PT também aparenta sofrer de albinismo oculocutâneo, apresentando grande deficiência na produção de melanina em sua pele, pelos corporais e olhos. Além disso, SCP-144-PT é extremamente cooperativo com estudos e complacente com relação à sua contenção.
Como parte de suas características anômalas, SCP-144-PT aparenta constantemente absorver o calor ao seu redor, podendo trazer um ambiente isolado a até -93ºC. A temperatura corporal da entidade varia entre 3ºC e 7ºC, porém, sem apresentar efeitos adversos à ela.
SCP-144-PT foi recuperado juntamente de um pingente metálico em formato de coração ligado a um cordão de mesmo material, designado SCP-144-PT-1. O objeto aparenta estar constantemente em temperaturas baixas, visto a formação de gelo em sua superfície, contudo, medições exatas não foram realizadas até o momento.
As anomalias apresentam uma conexão pouco compreendida entre si, de forma que caso SCP-144-PT-1 saia de contato físico com SCP-144-PT por mais que cinco horas, o último apresentará uma série de efeitos adversos em seu organismo que irão se agravar com o passar do tempo. Quando ambos os objetos voltam a entrar em contato, esses efeitos amenizam até desaparecerem por completo.
Durante tal processo, SCP-144-PT já reportou sentir dores de cabeça, dores musculares, fadiga, perda de apetite e náusea. Também foi observado o surgimento de pústulas e erupções em sua pele.
SCP-144-PT foi encontrado no dia 23/11/2004, no interior da estrutura de um trem abandonado na Estação Ferroviária de Belo Horizonte, após funcionários locais reportarem para as forças policiais "gelo crescendo em pleno meio-dia" no local. Funcionários da Fundação infiltrados rapidamente notificaram o sítio mais próximo para despacho de um time de contenção, ao passo que todos os civis e policiais envolvidos foram devidamente amnesticizados. A anomalia foi contida sem nenhuma complicação.
Anotações e entrevistas feitas pela líder do grupo de pesquisa encarregado de estudar SCP-144-PT sobre sua tentativa de traçar uma linha do tempo da entidade e, possivelmente, descobrir as origens de suas características anômalas.
09/12/2004
Entidade cooperativa, empática e consciente de sua condição atual. Interações foram produtivas até o momento, mas pouco foi efetivamente descoberto acerca do funcionamento de suas características anômalas. Por mais que determinar a veracidade de suas afirmações seja relativamente fácil, é um processo bem demorado. Ao menos temos um nome e local, já é um começo.
Amanda e Carlos estarão fazendo uma análise mais aprofundada de como ocorre a mudança de temperatura ao redor da entidade essa semana, com sorte conseguiremos algo concreto para nos basearmos.
Entrevistado: SCP-144-PT
Entrevistador: Drª Darwish, Setor de Pesquisa Humana, Sítio PT17
Data: 21/12/2004
Iniciar Registro
Drª Darwish: Bom dia, Sr. Ramiro, como está se sentindo?
SCP-144-PT: Bem o bastante, doutora, obrigado.
Drª Darwish: Ótimo, ótimo. Enfim, eu gostaria que você começasse a me contar sobre como exatamente você percebe a sua… condição atual, se não for um incômodo muito grande.
SCP-144-PT: Não é problema nenhum. Eu não entendo exatamente o que acontece aqui, para ser sincero. No máximo, sei apenas o que tanto você quanto eu podemos ver. As coisas ficam frias, mas acaba por aí.
Drª Darwish: Entendo. E o senhor não sentiu nenhuma alteração em si quando sua condição começou a se agravar?
SCP-144-PT: Eu fiquei um pouco mais pálido, disso tenho certeza, e acho que meus olhos ficaram mais claros, além de meu cabelo.
Drª Darwish: Interessante… Nada mais?
SCP-144-PT: Não. Cheguei a estranhar muito até, porque nada mudou de fato. Claro, não consigo ficar próximo de ninguém, não consigo comer nada sem parecer que estou mordendo pedras e tenho que suportar esse frio mesmo usando o maior casaco, mas não é o fim do mundo.
Drª Darwish: Tudo bem. Falando nisso, como considera seu estado mental nessa situação?
SCP-144-PT: Normal, acredito eu.
Drª Darwish: Não sente falta de nada?
SCP-144-PT: Eu não tenho mais do que sentir falta. Considerando tudo que passei, não estou no meu pior momento.
Drª Darwish: Hum… Acredito que seja tudo, por enquanto. Tem algo a adicionar?
SCP-144-PT: Bom, eu… eu acredito que isso tenha começado quando recebi este cordão, um tempo atrás. Não sei o quanto isso ajuda vocês, mas é tudo que sei.
Drª Darwish: Isso já ajuda muito, Sr. Ramiro. Obrigada.
SCP-144-PT: Doutora eu… eu agradeço por tudo que estão fazendo, de verdade. São poucos que tentam ajudar qualquer estranho assim.
Drª Darwish: Claro… Não se preocupe. Volto aqui semana que vem.
Fim de Registro
28/12/2004
Informações confirmadas pela documentação recuperada com a entidade relacionada com registros espanhóis. Filho de brasileiros, ensino médio completo mas não cursou faculdade, trabalhou na rede de produção da empresa Plataforma Càrnica, em um frigorífico na periferia de Terrassa, por um período ainda indeterminado. Habitou a região até imigrar ao Brasil, também sem uma data exata. Por enquanto é tudo, e parece que suas características anômalas só vieram a se manifestar uma vez que se alocou em Minas Gerais.
Os demais pesquisadores acabaram de realizar as medições gerais de temperatura do ambiente e da entidade. Em breve estarei solicitando uma análise do pingente sob posse da anomalia.
06/01/2005
Remoção do objeto causou efeitos adversos na entidade. Informações obtidas até o momento me levam a acreditar que o pingente seja a origem da condição na qual SCP-144-PT se encontra. Questionarei a anomalia em poucos dias acerca do assunto. Também encarreguei a Amanda de buscar o criador do objeto ou qualquer outra informação sobre ele.
Entrevistado: SCP-144-PT
Entrevistador: Drª Darwish, Setor de Pesquisa Humana, Sítio PT17
Data: 19/01/2005
Iniciar Registro
Drª Darwish: Olá, Sr. Ramiro.
SCP-144-PT: Boa tarde, doutora.
Drª Darwish: Está tudo bem? Sei que o incidente envolvendo seu pingente o deixou um pouco abalado.
SCP-144-PT: Sim, sim, mas já me sinto muito melhor agora.
Drª Darwish: Fico feliz de ouvir isso. Bom, esse é justamente o motivo pelo qual estou aqui novamente. O que o senhor conhecia dessa característica do objeto?
SCP-144-PT: (Suspirando) Pois bem. Eu já estava ciente de que isso acontecia. Desde quando encontrei o pingente já passei pelo problema três vezes. Fora isso sei apenas que ocorre da mesma forma sempre.
Drª Darwish: E por que omitiu esse fato quando retiramos o objeto?
SCP-144-PT: Eu não sei. Acho que estava apenas tentando adiar o inevitável.
Drª Darwish: Bom, tem mais alguma coisa que o senhor esteja guardando para si?
SCP-144-PT: Pelo pouco que vi de como atuam, sei que descobrirão qualquer outra coisa em breve.
Drª Darwish: Poderia pelo menos dizer como exatamente o objeto ficou sob sua posse?
SCP-144-PT: Assim que saí do navio no Espírito Santo, eu… encontrei uma caixa. Não sabia o que tinha nela, não sabia de quem era e nem a abri na hora, apenas guardei comigo até a estação de trem. Apenas quando cheguei em Belo Horizonte eu vi o pingente. Eu já podia ver que havia algo estranho com ele, mas o coloquei em meu pescoço mesmo assim. Um bom tempo se passou, por causa dessa coisa eu não pude encontrar um lugar para viver, custei para encontrar comida, e eventualmente fui trazido para cá.
Drª Darwish: Sr. Ramiro… eu quero te ajudar, mas sinto que não está sendo completamente sincero conosco.
SCP-144-PT: Acredite, doutora, eu tenho meus motivos. Não se preocupe, eu vou tentar esclarecer a história ao máximo, eu só… só não me sinto exatamente pronto no momento.
Drª Darwish: Tudo bem, tudo bem. Nos veremos novamente semana que vem.
26/01/2005
Nada a respeito do pingente. Não há registro indicando a fabricação de um objeto semelhante na região onde SCP-144-PT afirma ter encontrado a anomalia. Contudo, análises mais aprofundadas do pingente em si revelaram que o interior desse é coberto de minúsculos símbolos cravados no metal. Enviarei imagens para o Setor de Taumaturgia assim que possível.
Continuando a busca por registros oficiais de SCP-144-PT, parece que ele trabalhou no frigorífico por sete anos, até ser detido por homicídio realizado no próprio local. Permaneceu encarcerado por quinze anos até ser liberado. Continuou na Espanha por mais um ano até vir ao Brasil. Continuarei a questioná-lo acerca do objeto.
Entrevistado: SCP-144-PT
Entrevistador: Drª Darwish, Setor de Pesquisa Humana, Sítio PT17
Data: 04/02/2005
Iniciar Registro
Drª Darwish: Bom dia.
SCP-144-PT: Bom dia.
Drª Darwish: Acredito que você já saiba o que eu gostaria de discutir hoje.
SCP-144-PT: Sim. Sim, eu sei. Eu… eu cometi erros, doutora, erros muito graves. Nada será capaz de justificar o que fiz e não pretendo nunca justificar aquilo. Porque eu matei um homem? Meu amigo, ainda por cima? Inveja, talvez. Eu via alguns de meus colegas ascenderem na fábrica mas eu continuava na mesma. E isso me levou a cortá-lo ali mesmo e enfiar seu resto no freezer. O tempo que fiquei enjaulado me ajudou a refletir sobre isso, mas não foi o bastante. Quando saí eu já não tinha mais nada. Não pude encontrar emprego, fui rejeitado pela minha família e meu nome ficou manchado para sempre. Logo decidi juntar o pouco que tinha e tentar a sorte aqui.
Drª Darwish: Entendo, Sr. Ramiro, mas gostaria que focasse no objeto.
SCP-144-PT: Eu não sou um homem supersticioso. Não acredito em deuses, maldições ou destinos mágicos. Eu acredito em pessoas. Pessoas que sem ajuda alguma navegaram pelos mares e foram ao espaço. Essas são as mesmas pessoas que poderiam facilmente ter criado isso aqui. Eu… eu não achei a caixa, eu a recebi. Assim que comecei a andar pelo porto uma mulher veio até mim, me entregou isso sem dizer nada e foi embora. Eu já sabia o que era desde o começo, só pelo olhar dela. E eu entendo. Uma vida inteira, doutora, eu tirei uma vida inteira. Alguns anos não compensam isso. Eu não quero me livrar do pingente, eu nunca quis. Se acabar com isso fosse minha prioridade, eu teria feito há muito tempo atrás.
Drª Darwish: E o que você pretende fazer?
SCP-144-PT: Nada, doutora. Incrivelmente esse lugar é melhor do que qualquer coisa que eu esperava conseguir na vida. Eu não entendo exatamente o que vocês são ou querem, mas posso te dizer que meu estado atual já é o bastante, eu não preciso de mais nada.
Drª Darwish: Não sei se entendo sua lógica muito bem, Sr. Ramiro, mas tudo bem. Continuaremos com nossas entrevistas semanais. Tenha um bom dia.
SCP-144-PT: Certo… Mas saiba que eu não menti quando disse que sou grato pelo que fazem por mim. Enfim, até logo, doutora.
05/02/2005
Visto as últimas interações com a entidade, acredito que seu estado mental esteja de fato se deteriorando, seja pelo isolamento contínuo ou qualquer outro motivo. Começarei a realizar uma análise mais detalhada de seu perfil psicológico. O Setor de Taumaturgia confirmou que as marcas no pingente são de fato runas e que há uma possibilidade de anular o efeito da anomalia. Irei discutir com os demais integrantes do grupo de pesquisa acerca da situação.
Item nº: SCP-020-PT
Classe de Objeto: Seguro
Nível de Ameaça: Branco ●
Procedimentos Especiais de Contenção: O portal de acesso de SCP-020-PT, encontrado na entrada de funcionários do Pavilhão 4 do Riocentro, localizado na cidade do Rio de Janeiro, deve ser constantemente vigiado por um funcionário da Fundação infiltrado na equipe de segurança do centro de convenções. Tal funcionário deve trocar a vigia com outro funcionário infiltrado diariamente, impedindo a entrada de qualquer pessoal não autorizado por meios não-letais. O monitoramento remoto da mesma entrada deve ser feito por câmeras locais conectadas aos servidores do sistema de segurança interno do Sítio PT16.
Testes e/ou expedições envolvendo SCP-020-PT devem ser realizados em dias quando o Riocentro não estiver aberto ao público, como feriados e domingos, ainda apresentando histórias de acobertamento para as equipes de pesquisa no local. Não mais que cinco funcionários devem permanecer na região ao mesmo tempo, a fim de se evitar suspeitas de qualquer pessoal não autorizado na área.
Civis encontrados no interior de SCP-020-PT que não possuam quaisquer características anômalas devem ser levados ao Sítio PT16 para interrogatório e amnesticização adequada. Civis hostis encontrados no interior da anomalia que engajarem em combate com funcionários da Fundação devem ser eliminados ou, se possível, capturados e enviados ao Sítio PT16 para interrogatório.
Anomalias humanoides encontradas no interior de SCP-020-PT devem ser imediatamente imobilizadas e enviadas para contenção no Sítio PT16, sendo que a captura de tais anomalias deve ser tratada como prioridade máxima no interior do local. Quaisquer anomalias adicionais devem ser devidamente contidas e enviadas ao mesmo sítio anteriormente mencionado para análise e possível realocação.
Descrição: SCP-020-PT é uma dimensão de bolso artificial criada por meios desconhecidos, que abriga uma réplica exata do centro de convenções do Riocentro1, localizado na cidade do Rio de Janeiro. A réplica se assemelha à estrutura original do centro de convenções, que foi inaugurado em 1977, possuindo um total de 580 000 metros quadrados de área.
Fora dessa área se estende um corpo de água de profundidade e distância totais ainda desconhecidos, que por sua vez abriga imensas quantidades de diferentes espécies de medusas, algas e plâncton bioluminescentes ainda não catalogadas.
Dada a inexistência de quaisquer corpos celestes para além da atmosfera de SCP-020-PT, as entidades anteriormente mencionadas são a única fonte natural de luz da dimensão, contudo, energia elétrica é amplamente usada para a iluminação artificial da área do centro de convenções.
Tanto a atmosfera de SCP-020-PT, quanto a terra que compõe o solo da área do centro de convenções e a água que envolve o local aparentam ser os mesmos encontrados no universo basal, assim como todos os materiais artificiais ou manufaturados que formam as estruturas principais e secundárias da dimensão.
SCP-020-PT é dividido em cinco estruturas principais, nove estruturas secundárias, vinte e sete estruturas terciárias e seis pátios, fora uma instalação que não possui uma versão basal. As estruturas principais são os pavilhões paralelos de 1 a 5, as secundárias são os prédios administrativos e recreativos paralelos de 1 a 9 e os pátios são os três estacionamentos paralelos, o parque, e as quadras de tênis externas.
As estruturas terciárias são construções pequenas diversas, compostas por diferentes materiais, que não possuem uma versão basal, possivelmente tendo sido construídas pelas anomalias humanoides que supostamente criaram a dimensão e posteriormente habitaram a mesma.
Além de tal divisão estrutural, a área total do Riocentro Paralelo é dividida em quatro regiões, sendo estas os alojamentos (localizados nos estacionamentos paralelos), os armazéns (compostos pelos pavilhões paralelos 3 e 4), a área de recreação e treinamento (formado pelo parque, pelo prédio administrativo paralelo e pelo Pavilhão Paralelo 5) e a região administrativa (composta pelos pavilhões paralelos 1 e 2).
REGISTRO DE DOCUMENTO: IXG-020-SBP
SUPERINTENDÊNCIA BRASILEIRA DO PARANORMAL
COMANDANTE ARY CASAES BEZERRA CAVALCANTI
RELATÓRIO DE ORGANIZAÇÃO TERRORISTA 009
ORGANIZAÇÃO: Associação pelos Direitos das Entidades Paranormais
LÍDER(ES): Joaquim Câmara Ferreira "Comandante Toledo"
CRIADA EM: 23 de Agosto de 1965
NÚMERO DE INTEGRANTES: 263
CONDIÇÃO: Inativa
AÇÕES NOTÁVEIS: Roubo de Armas e Explosivos / Assassinato do Subtenente ████████ ██ █████ / Assassinato do Almirante ███████████ █████ / Tentativa de Assassinato do General ███████ ██████ █████ / Libertação Forçada de Presos / Destruição do 19º Batalhão de Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro
VISÃO GERAL: Formada em 1965 por Joaquim Câmara Ferreira, alegando ser a sub-sede regional do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista na cidade do Rio de Janeiro. Monitoramento de atividades da Organização pelo Destacamento de Operações de Informação do Centro de Operações de Defesa Interna foram inconclusivas até o abandono do prédio da sub-sede em 1970.
A Organização abrigava seres com capacidades paranormais diversas, realizando atos de terrorismo na região Sudeste do país como resposta às prisões de Inimigos de Estado notáveis, causando inúmeros danos a patrimônios públicos e privados até sua dissolução com a Operação Iraúna. Sendo localizada na Região Isolada B-262, a posição da sede da Organização se manteve desconhecida até 1978, quando seu ponto de acesso foi identificado durante inspeções de reuniões do PCB no Centro de Convenções do Riocentro.
Após o estabelecimento de uma fonte de informações segura no interior da Organização, foi confirmada a interação entre a mesma e a Ação Libertadora Nacional, trocando principalmente equipamentos de poder destrutivo e informações com relação à atos de terrorismo em território nacional.
Após os eventos descritos abaixo, em 1991, foi erguido o Posto Avançado 086-KG, com o intuito de estudar o local onde a Organização se encontrava, manter parte de seus antigos membros em estado de ██████████ e servir de bastião contra os constantes ataques de outras organizações terroristas.
AÇÕES TOMADAS: Tendo conhecimento do local onde a sede da Organização se encontrava em 1978, fora traçada uma maneira de intervir sem causar distúrbio no meio público, levando a criação da Operação Iraúna (ref. 281-U45), executada em 30 de abril de 1981. Dentre os objetivos primários da Operação, vale destacar o fracasso em atender o quesito da eliminação do líder da Organização Joaquim Câmara Ferreira, contudo, demais objetivos foram alcançados com sucesso.
Segue listado abaixo o balanço dos resultados da Operação com relação aos integrantes da Organização:
0 - Joaquim Câmara Ferreira "Comandante Toledo" / Foragido
1 - Bruno Piola "Carretel" / Morto
2 - Eimur Péricles de Camargo / Preso
3 - João Batista Rita / Morto
4 - Marta Elizete Bragança "Ybytu" / Foragida
5 - Edmundo Rizetti Mendonça / Morto
6 - Danieli Dias do Nascimento / Morta
7 - Alexandre Vannuchi Leme3 / Foragido Morto
8 - Nícolas Petruvo dos Santos / Preso
9 - Amanda Pereira Alencar / Morta
10 - Marcos Caldeira Brandt / Morto
(1)
ORDEM E PROGRESSO
REGISTRO DE DOCUMENTO: ISL-020-SBP
SUPERINTENDÊNCIA BRASILEIRA DO PARANORMAL
COMANDANTE ARY CASAES BEZERRA CAVALCANTI
C O N F I D E N C I A L
OPERAÇÃO IRAÚNA
ASSUNTO: Detalhamento de manobra de campo para manutenção da segurança nacional frente à ameaça de células terroristas de Inimigos de Estado diversos.
REFERÊNCIA: CIEX - DIV. SBP nº 077/342
SEÇÃO: A-01/Introdução
1. Idealizada pelos majores Newton Vassalo da Silva e Dilson Lyra Branco Verçosa, com assistência do capitão em exercício da 28ª Companhia de Fuzileiros do Rio de Janeiro, Benoni de Arruda Albernaz, a "Operação Iraúna" tem como objetivo primário eliminar a crescente ameaça ao país que se tornou a Organização Terrorista denominada "Associação pelos Direitos das Entidades Paranormais". Dentre os objetivos secundários estão: a captura e prisão do líder da Organização, Joaquim Câmara Ferreira "Comandante Toledo"; a asseguração e devido armazenamento de objetos de interesse locais e a manutenção da segurança regional por meio da criação de um Posto Avançado no interior da região.
2. O corpo organizado pelo Capitão Benoni de Arruda Albernaz para realizar a operação é formado por cento e cinquenta homens da Cia. sob seu comando, dispondo do equipamento e meios de transporte armazenados no Quartel do 1º Batalhão da Polícia do Exército, Rio de Janeiro. Segue abaixo a visão geral da preparação e planejamento da execução da Op. Iraúna. Detalhamento do planejamento de confronto direto segue na Seção A-03.
2.1. Tendo finalizado e garantido a inserção de seis operativos no interior da ADEP com uso do último modelo estacionário dos Aparelhos Apamachi4 por um período de duas semanas sem incidentes, foi traçado pelos oficiais da Cia. do Cap. Arruda o planejamento da Operação Iraúna, dividido em três partes.
2.2. Previsão inicial para realização do evento é em 30 de abril de 1981, tendo em vista planejamento de um grande evento cultural organizado por partidos comunistas diversos no Riocentro. Tendo esse ponto em mente, a operação em si teria início com a detonação de um explosivo na região, de forma que houvesse um distúrbio da multidão que facilitasse a manobra sem levantar suspeitas de terceiros.
2.3. Fora o equipamento ordinário requisitado pelo Cap. Albernaz para realização da Operação, foi solicitado o uso dos armamentos experimentais Charlie EM-025, EBR 19906 e █████-██ para uso em combate. Aprovação pendente.
(1)
ORDEM E PROGRESSO
REGISTRO DE DOCUMENTO: ISP-020-SBP
Registro de Campo - Relatório Pós-Ação
Rio de Janeiro, 1 de maio de 1981
Documento redigido por 1º Ten. Arruda após conclusão da Op. Iraúna
Objetivo primário bem-sucedido, asseguração da localidade concluída. "Comandante Toledo" se encontra foragido. Baixas da 28ª Companhia de Fuzileiros: 72. Baixas de Inimigos de Estado: 204 (confirmação pendente). Objetos de interesse assegurados: 21. Segue análise da região para confirmação da possibilidade de construção de um posto avançado em breve.
Cap. Albernaz foi morto durante o transporte da bomba que anunciaria o início da operação. O explosivo foi detonado prematuramente fora da instalação principal do Riocentro. Além do Cap. Albernaz, o Sgt. Pereira, que também estava no mesmo veículo, foi gravemente ferido pela explosão e se encontra no Hospital Naval Marcílio Dias. Supressão de veículos de mídia na região em andamento.
REGISTRO DE DOCUMENTO: AAC-020-ADEP-1 a AAC-020-ADEP-37
[Início de registro]
A gravação mostra o interior do que aparenta ser uma sala no prédio administrativo da região. Ao fundo é possível ver a margem da anomalia e a iluminação natural que vem do corpo d'água ao redor. Cinco indivíduos portando ternos completos se encontram lado a lado em frente à câmera, incluindo o líder da organização, conhecido como "Comandante Toledo". É notável um erro na gravação constantemente sobre a face de um dos indivíduos, além de outro possuir uma máscara metálica cobrindo seu rosto.
Girassol: Beleza, tudo certo. Pode falar.
Toledo: Falar o quê?
Girassol: Ah, qualquer coisa. Vamos, você sabe que é importante registrar esses momentos.
Toledo: Tem certeza? Eu… não sei se é uma boa…
Os demais indivíduos ao redor de Toledo tentam o encorajar a concordar com o pedido de Girassol, falando ao mesmo tempo.
Toledo: Tudo bem, tudo bem.
Toledo dá um passo à frente, retirando um cristal esverdeado de seu bolso e segurando-o com as mãos enquanto os demais indivíduos aplaudem.
Toledo: Bom, eu gostaria primeiro de agradecer a todos vocês por me ajudarem a transformar esse sonho em uma realidade. [Ele fecha os olhos e respira fundo.] Tudo… tudo começou quando deixei o Sindicato dos Metalúrgicos que, como vocês sabem… [Toledo gesticula para a câmera] ou pelo menos você sabe, não era exatamente o que eu esperava. Não me entendam mal, o trabalho deles é essencial para a causa, mas… eu sempre preferi a ação direta, sabe?
Toledo se vira e caminha em direção à janela. Os demais indivíduos em cena abrem caminho para sua passagem enquanto a câmera se aproxima.
Toledo: Então, logo mais, eu e a Sol organizamos a sede do sindicato aqui no Rio. Era uma boa fachada, sabe? Pouco a pouco o pessoal foi se juntando, primeiro vieram esses quatro, [Toledo se vira e gesticula para os outros indivíduos ao seu redor] e mais tarde foram vindo dez, trinta, cinquenta… Pessoas como nós, sabe? Ou que pelo menos compartilhavam das mesmas ideias que nós. Eu já tinha tentado outras coisas, também…
Toledo caminha para a direita, olhando para o chão e segurando com firmeza o cristal.
Toledo: Mas acontece que até nos movimentos de luta, tem discriminação, sabe?
Os indivíduos, agora à esquerda da cena, murmuram entre si acenando com suas cabeças em concordância.
Toledo: Enfim, não é difícil achar gente que acredita nas mesmas coisas que você.
Indivíduo Desconhecido #1: A rádio tinha sido uma boa jogada.
Toledo: É… [Toledo ri levemente.] Eu tinha uns amigos que sabiam um pouco de propaganda e tudo mais. Foram essas pequenas coisas que atraíram o pessoal e ajudaram a gente a tornar essa ideia, esse sonho, em uma realidade. E queríamos começar com algo simples, sabe? Mas aí eles vieram nos empurrando com mais e mais força… até o dia que levaram o Joca. Eu não preciso lembrar ninguém aqui, não é? Tem uma foto dele na praça, lá embaixo mesmo. Foi uma covardia, uma brutalidade que eu nunca vi antes… e na nossa frente, ainda por cima, dentro do prédio e…
[Toledo pausa, se virando para a câmera novamente, que agora se posiciona em frente aos demais indivíduos, de forma que apenas Toledo fica em cena.]
Toledo: Enfim, foi aí que decidimos fazer algo. Primeiro foi a… a…
Girassol: [Sussurrando.] A coisa no centro da cidade.
Toledo: Isso. A gente parou um camburão com um pessoal que a gente conhecia da OAB, ajudaram a gente com a fundação da sub-sede, sabe? O pessoal rendeu dois policiais, mataram eles naquela rua mesmo e foram embora. Pode parecer coisa pequena, mas aquilo foi um símbolo, uma marca do que a gente poderia fazer, um sinal de que a gente poderia finalmente revidar!
Os demais indivíduos aplaudem.
Toledo: Depois fomos fazendo uma coisa aqui e ali enquanto pensávamos no projeto maior: o lugar onde eu e todos vocês estamos pisando nesse exato momento. Demorou um tanto, nós sofremos bastante no caminho, mas eventualmente chegamos aqui. Os contatos que eu tinha de Minas foram o essencial para isso, porque conseguiram me dar essa pequena pedra aqui.
Toledo estica os braços em direção à câmera, exibindo o cristal em suas mãos.
Toledo: Eu… acho que é tudo. Estamos aqui agora e é isso que importa. Sem mais opressão, sem mais medo. Essa é a hora de virarmos o jogo. Devemos resistir e ficar unidos, até o final, aconteça o que acontecer! Obrigado.
Toledo guarda o cristal em seu bolso, enquanto os demais indivíduos aplaudem fervorosamente. A câmera é posicionada em alguma estrutura sólida. Girassol entra em cena e abraça Toledo, retornando em pouco tempo para parar a gravação.
[Fim de Registro]
[Início de registro]
A gravação mostra doze indivíduos trabalhando na construção de uma estrutura utilizando partes de pilhas de sucata posicionadas ao fundo, como tábuas de madeira e placas de metal. O local fica na margem do que acredita-se ser a região de armazéns da anomalia. A câmera se aproxima de um indivíduo denominado "Carretel", que porta um uniforme militar sem identificação e se encontra de pé observando a construção. Ele se vira em poucos segundos.
Carretel: Girassol! Bom dia.
Carretel retira seu quepe e o segura em seu peito. É notável que no lugar do olho esquerdo do indivíduo há uma esfera metálica preta.
Girassol: Oi Carretel, como vai?
Carretel: Tudo bem por aqui. Ajudando o pessoal com a obra. E você, anda fazendo o que com isso?
Girassol: O Toledo me pediu para filmar como andam as construções e os campos da praça, para comparar com mais tarde. Aproveitei para fazer uma espécie de anúncio do lugar aqui. O que vocês estão montando aí?
Carretel: Ah, [se virando para a construção] um galpão. Nada muito grande como os outros, acho que alguma coisa de montagem ou algo assim. Eu só to supervisionando aqui, mas o pessoal sabe se virar muito bem sozinho. Não sei se é para fazer carros ou coisas para as plantações, também nem sei se alguém aqui sabe fazer isso, mas enfim.
Girassol: Ei! Pode ficar parado para mim, por favor?
Carretel: Tudo bem.
A câmera se abaixa, mostrando à direita as costas de Carretel, no centro a parte superior da obra e à esquerda a luminosidade vinda do corpo d'água que envolve a região. Essa posição é mantida pelos próximos dois minutos.
Girassol: Progresso.8
A câmera se levanta, Carretel se vira para ela e acena, colocando seu quepe em sua cabeça e andando em direção à construção em seguida. A câmera é virada para trás, revelando o prédio administrativo paralelo ao fundo e o Pavilhão Paralelo 4 à sua frente. A câmera se abaixa centralizando uma passagem em meio a uma série de barracos de sucata, por onde começa a passar lentamente. Em poucos minutos, três crianças cruzam a passagem correndo atrás de galinhas, fazendo a câmera parar e acompanhar seu movimento pelo tempo que ficam em cena.
Girassol: Esperança.
Andando mais uma vez, a câmera passa pelo aglomerado de barracos, chegando em um gramado livre logo antes do pavilhão. É notável, nesse espaço, a presença de uma mesa de concreto e dois idosos sentados em sua volta. A câmera foca nos dois indivíduos e se aproxima lentamente, revelando que ambos estão jogando dominó. Ela se posiciona de forma que os lado dos dois fique centralizado. Notando sua presença, os idosos acenam para Girassol. Um dos indivíduos aparenta ter, no lugar de seu braço esquerdo, uma série de ramificações vegetais pendendo para baixo. A cena é mantida por cerca de quatro minutos enquanto os dois focam no jogo.
Girassol: União.
A câmera volta a focar no pavilhão, caminhando até passar por sua entrada principal, revelando cerca de trinta indivíduos organizando caixotes, montando barricadas e armazenando equipamentos, todos voltados para o portal de acesso de SCP-020-PT. Se virando para a parede onde o portal se encontra, a câmera atravessa o local lateralmente, parando no centro do pavilhão por cerca de cinco minutos.
Girassol: Segurança.
O mesmo movimento anterior é retomado, até chegar na porta oposta àquela por onde a câmera entrou na instalação, se virando para sair do local. Abrindo as portas, é revelado um campo com séries de plantações. A cena se aproxima lentamente de uma mulher de joelhos em meio a um conjunto de pés de milho. Ela se levanta ao ver a câmera se aproximar.
Girassol: [Sussurrando.] Ybytu, pode colocar aquela enxada no ombro e ficar sorrindo, por favor?
A mulher atende ao pedido, ficando na mesma posição por seis minutos.
Girassol: Prosperidade.9
O indivíduo em cena se despede, voltando sua atenção à plantação. A câmera é erguida, mostrando a extensão total dos campos de produção até a margem, com cerca de dez outros indivíduos trabalhando na terra. A cena é virada para a esquerda, focando no prédio administrativo paralelo, onde apenas uma sala do andar mais alto se encontra com as luzes acesas.
Girassol: Aqui, somos um povo, com um único objetivo: resistência. Não importa quem seja, você também pode ajudar na luta contra a injustiça, contra a opressão, contra a censura e…
Toledo: Sol!
A câmera se vira para trás, revelando Toledo se aproximando pela passagem entre o Pavilhão Paralelo 4 e a plantação, sendo abaixada logo em seguida. A câmera permanece pelo restante da gravação apontada para o chão.
Girassol: Amor, eu estava no meio da…
Toledo: É importante. O pessoal… encontrou algo no mar.
Girassol: No mar? Mas você disse que não tinha…
Toledo: Eu sei o que eu disse, é que… Eu não fui totalmente honesto. Acredite, tem algo lá que pode nos ajudar a…
Girassol: O que foi?
Toledo: Não aqui. Vamos para o prédio.
[Fim de Registro]
[Início de Registro]
A gravação mostra dezenas de indivíduos armados correndo em direção ao Pavilhão Paralelo 4, de onde podem ser ouvidos diversos disparos. A câmera se aproxima rapidamente da porta principal da instalação, até o movimento ser interrompido abruptamente por Toledo. A cena é virada para focar nele, mostrando parte de seu rosto e seu terno cobertos pelo que aparenta ser sangue, enquanto ele segura um revólver em sua mão direita.
Toledo: O que você está fazendo?
Girassol: Eu… eu pensei em…
Toledo: Sol… isso não é uma boa hora. Eu te pedi para ficar no…
Toledo é interrompido por um projétil que perfura a parede do pavilhão, continuando sua trajetória até atingir o prédio administrativo paralelo. Nota-se que não há nenhuma detonação no interior do edifício. A câmera volta a focar em Toledo.
Toledo: Não tem como ficar aqui! Eles… eles vieram antes do esperado. A gente precisa ir para o…
Girassol: Não! Essa não era a ideia! Você não me falou que era isso que iria acontecer. Não foi o que me prometeu quando…
Uma série de explosões vindas do interior da construção ao lado da cena interrompem a conversa. A câmera se vira para a porta, de onde uma série de integrantes da ADEP saem, disparando contra o interior do pavilhão. Alguns são atingidos enquanto outros indivíduos formam barricadas improvisadas ao redor da passagem. A câmera é apontada para o chão.
Girassol: Olha para isso. São seus companheiros. São nossos amigos. É isso que você quer fazer? Fugir?
Toledo: Eu não posso arriscar perder tudo que construímos assim. Você… você sabe que não temos chance aqui. Vamos para…
Girassol: Não! Não. Nós vamos segurar eles, nós vamos ficar aqui e vamos sair dessa. Nós temos que con…
Uma detonação ocorre a poucos metros da cena, fazendo a câmera ser lançada ao chão. É possível ver Toledo lentamente se levantando e tentando se aproximar de Girassol, agora visível à esquerda da cena. Contudo, sua trajetória é interrompida pela saída de diversos guerrilheiros disparando contra o interior do pavilhão. Muitos deles são abatidos por uma segunda explosão próxima do mesmo local. Após a dissipação da fumaça, Toledo pode ser visto tentando se aproximar novamente, mas ele logo abaixa sua arma e corre na direção oposta. Girassol permanece no chão por aproximadamente três minutos, até se levantar e pegar a câmera.
A cena foca na destruição causada ao pavilhão pelas explosões, revelando uma série de indivíduos ainda tentando conter o avanço dos integrantes do Exército Brasileiro, que começam a tomar vantagem numérica no interior da instalação. Ainda mantendo o local em cena, a câmera começa a se afastar por mais alguns metros, até se virar rapidamente na direção de um conglomerado de barracos. Seguindo um caminho entre eles, a cena logo se vira para a esquerda em uma passagem principal, acelerando na mesma direção enquanto Girassol corre.
Após alguns minutos, a cena registra um grupo de cinco pessoas cruzando a passagem, que param seu movimento ao ver Girassol. Porém, antes que pudessem dizer algo, todas as fontes de luz da área e, presumidamente, de toda a região são desativadas ou sobrecarregam e explodem, como é o caso dos postes de iluminação da passagem em cena. A cena permanece em quase completa escuridão por alguns segundos, até que um feixe de luz seguido por uma série de disparos atingem as pessoas à frente. Em seguida, quatro soldados (militares?)se aproximam dos cadáveres, realizando mais disparos contra os corpos.
A partir desse momento, a câmera é apontada para o chão, enquanto a respiração ofegante de Girassol pode ser ouvida a todo momento. A cena rapidamente mostra o interior de um barraco, até passar para uma janela e algum pátio da região. O movimento continua ininterrupto por cerca de quinze minutos, até que uma leve iluminação esverdeada passa a se intensificar. A câmera é levantada, revelando um armazém improvisado em meio a outras construções. A cena passa a focar no corpo d'água ao redor da região, onde é possível ver uma embarcação mediana se afastando à distância. A câmera é largada enquanto Girassol chora por alguns minutos, com apenas seus pés e a edificação à frente visíveis em cena.
Do interior do armazém, Carretel sai e se aproxima de Girassol, com uma pistola em sua mão direita.
Girassol: Por que? Por que eu… Eu não acredito que ele nos…
Quando Carretel chega ao lado de Girassol, de forma que apenas seus pés podem ser vistos, uma batida é ouvida enquanto ela cai em frente à câmera. Carretel amarra os punhos de Girassol em suas costas, arrastando-a logo após até que ambos saiam de cena. Apenas o cenário permanece visível sem alterações pelos minutos restantes da gravação.
[Fim de Registro]
REGISTRO DE DOCUMENTO: THH-020-SBP
Entrevistado: Primeiro-tenente Jurandir Gomes de Carvalho
Entrevistador: (TÍTULO) Danilo Wagner Ayres, Sítio PT16
Prefácio: Entrevista realizada na residência do 1º Ten. Gomes, Rio de Janeiro, em 22/08/2014 acerca da instalação pertencente à Superintendência Brasileira do Paranormal no interior de SCP-020-PT e os eventos locais entre 1981 e 2003. A fim de manter o sigilo da operação, o 1º Ten. Gomes foi informado que a entrevista seria parte de um processo de investigação antes de sua audiência pública à Comissão Nacional da Verdade.
[Início de Registro]
(XYZ) Wagner: Boa tarde, tenente.
1º Ten. Gomes: Por favor, sente-se.
(XYZ) Wagner: Agradeço. Antes de mais nada, devo lhe informar novamente que eu e a equipe estamos aqui apenas para registrar o máximo de informações possíveis antes de sua audiência, fazer uma linha do tempo, saber o que fazia, com quem conversou e tudo mais. Ajudará na formação de perguntas pelo conselho da comissão.
1º Ten. Gomes: Sim, sim, claro. Mas… eu queria deixar claro que eu não matei ninguém. Tudo que fiz foi…
Wagner: Com todo respeito, não cabe a nós julgá-lo. Não agora. Iremos fazer perguntas com relação ao senhor e seus colegas, principalmente.
1º Ten. Gomes: Sim, eu… sim. Entendo. Pode continuar.
Wagner: Ótimo. Vamos começar com seu papel no atentado ao Riocentro, tudo bem?
1º Ten. Gomes: Foi uma operação necessária, não um atentado. Eu posso até lhe afirmar que nenhum civil foi ferido. Nós fomos limpos e precisos, nada que…
Wagner: O seu papel, tenente. Nós temos o bastante sobre a operação. Eu preciso saber o que fazia dentro da sede da ADEP.
1º Ten. Gomes: Claro… Perdão. Eu estava liderando um pelotão com vinte e cinco homens no… Um segundo, como? Como você…
Wagner: Por favor, tenente. Sabemos que você era integrante de uma seção muito especial do exército, portanto, saiba que somos de uma seção muito especial da comissão. Estamos interessados apenas nessa parte de sua história.
1º Ten. Gomes: Bom… entendo. Sim, eu… já deveria esperar por isso. Como estava dizendo, eu liderei o pelotão no interior do local, com o objetivo de assegurar a região leste, onde estaria o armazém contendo a rota de fuga do Toledo, que acredito que vocês já…
Wagner: Sim, conhecemos o sujeito.
1º Ten. Gomes: Claro. Foi apenas isso, nós abrimos caminho pelo pavilhão e chegamos à costa, mas era tarde. O cerco deles ao edifício nos segurou por tempo o suficiente. Claro, eu também não realizei nenhum disparo, afinal de contas eu fui ordenado a avançar lentamente já que…
Wagner: Tenente.
1º Ten. Gomes: Perdão. Nós entramos, demos nosso melhor e retornamos ao quartel. Esse foi meu papel.
Wagner: Certo. E depois?
1º Ten. Gomes: Como assim? Depois eu… eu fiquei no Rio até entrar para a reserva, e voltei a morar aqui desde então.
Wagner: Tenente, acredito que esteja nos subestimando. Não há o que esconder, nós sabemos que serviu por um bom tempo na instalação.
1º Ten. Gomes: Eu… não sei do que está falando.
Wagner: 086-KG.
1º Ten. Gomes: Como você…
Wagner: É nosso trabalho coletar informações do período, fico surpreso que o senhor tenha acreditado que tudo ficaria escondido. Agora, vamos voltar às perguntas, nosso tempo aqui é curto. O que você fazia no prédio?
1º Ten. Gomes: [Suspirando.] Gerenciamento de equipamento. Armas, alimento, uniformes… tudo.
Wagner: Ótimo. Teve alguma complicação?
1º Ten. Gomes: O que quer dizer com isso?
Wagner: Qualquer coisa que interpretar. Acidente de trabalho, confusões com colegas, problemas estruturais, estresse… Alguma coisa que afetasse seu desempenho.
1º Ten. Gomes: Não… não me lembro de nada.
Wagner: Hm… E durante seu tempo no local, você chegou a voltar para a cidade?
1º Ten. Gomes: Não podíamos sair. Não depois de noventa e dois. Eu nunca precisei mas… Enfim, nunca saí de lá.
Wagner: Mas em algum momento o senhor saiu, ou não estaria aqui. Correto?
1º Ten. Gomes: Sim, quando todos se foram em 2003 eu fiquei.
Wagner: Ah, tenente, era nessa parte que eu queria chegar. Mas antes, alguém mais ficou para trás com o senhor?
1º Ten. Gomes: Nin… ninguém. Eu fui o único.
Wagner: Claro. E por que eles se foram?
1º Ten. Gomes: Eu… não posso…
Wagner: Tenente, isso não é seu julgamento. Acredite se quiser, nós queremos te ajudar aqui. Mas precisamos de todos os detalhes ou a defesa não irá conseguir formar uma narrativa coesa. Por que eles abandonaram a instalação?
1º Ten. Gomes: Alguém mais vai saber disso?
Wagner: Dessa entrevista? Não. Mas a audiência será pública, tenente. Contudo, os assuntos mais delicados que tratamos aqui não serão abordados mês que vem. Não se preocupe.
1º Ten. Gomes: Tudo… tudo bem. O major e o resto da companhia supostamente descobriram onde Toledo estava. Foram todos os papeis dos terroristas e a menina que ajudaram a chegar nessa conclusão mas…
Wagner: Sim?
1º Ten. Gomes: Era porco. O plano era porco. Estávamos há anos naquela ilha maldita, comendo a mesma coisa, vendo os mesmos rostos e cada vez mais nos separando do resto do mundo. Eu não sei o que era, mas o major estava obcecado. Novamente, o plano era porco, e aqueles mares não têm fim. Já havíamos mandado alguns homens para o nada antes, que voltavam sem respostas ou nem voltavam. Quando soube que iríamos levar o máximo possível e partir eu… eu não aguentei. O plano era porco e a partida foi também, não houve chamada, verificação, nada. Só foram embora. Precisei apenas esperar em minha sala e logo estava em uma cidade deserta.
Wagner: E depois disso você voltou para casa como se nada tivesse acontecido.
1º Ten. Gomes: Sim.
Wagner: Isso é uma coisa boa, tenente. Agora, sobre a garota que mencionou, tem um nome?
1º Ten. Gomes: Ah, não era minha área, eu não faço ideia de seu nome.
Wagner: Tem alguma coisa sobre ela? Onde ficava no local, para onde foi… qualquer coisa?
1º Ten. Gomes: Bom, ela ficou na seção especial dos armazéns, uns estranhos compartimentos. Meus colegas da área de pesquisa chamavam de freezer, mas nunca prestei atenção. Sei que após a partida, todos foram esvaziados, então posso apenas acreditar que ela e os outros foram levados ao mar.
Wagner: Outros?
1º Ten. Gomes: Os demais terroristas capturados.
Wagner: Claro. Bom, isso é muito mais que eu esperava conseguir. Uma última coisa, tenente, por que foi erguida a instalação em primeiro lugar?
1º Ten. Gomes: A intenção inicial era poder ter um lugar para ter um controle maior da parte de pesquisas e… interrogatório, até onde eu sei. Mais tarde aquilo acabou se tornando um sonho de resistência da revolução. Um sonho em que eu acreditei por muito tempo.
Wagner: Entendido. Bom, tenente, acredito que isso seja tudo. Tem algo a adicionar?
1º Ten. Gomes: Ninguém mais vai ver isso, certo?
Wagner: Não se preocupe, somente o conselho verá a gravação.
1º Ten. Gomes: Obrigado.
[Fim de Registro]
Um quebra-molas que apareceu no caminho sem aviso quase fez César botar o café da manhã todo para fora.
"Porra Santos." Disse o cabo, com a voz trêmula. "Vai mais devagar cara…"
"Me desculpe, princesa." Respondeu Santos, em tom de deboche. "Mas a gente não tem o dia todo. O sargento quase arrancou a minha cabeça fora porque você demorou meia hora pra se levantar."
"Ah, foda-se…" Disse César, olhando pela janela, tentando focar em algum ponto fixo no horizonte, porém o balanço do caminhão tornava aquela tarefa quase impossível. O cabo já havia feito aquele trabalho diversas vezes. Era simples, era rápido e ele era recompensado. Mas mesmo assim, só de ver um fósforo aceso César sentia seu estômago revirar. Talvez nem seja o trabalho em si. Interrogar alguém e se livrar do corpo. Ele estava acostumado àquilo tudo. Mas o cheiro. Aquele cheiro fazia o cabo ficar tonto toda vez. "Pelo menos o lugar é perto." Pensou César, enquanto fechava os olhos para tentar descansar um pouco.
"Acorda César. Eu nunca mais vou te deixar dormir seu desgraçado." Disse Santos, enquanto dava alguns socos no ombro do companheiro. "Se a gente fizer isso logo, ainda dá tempo de pegar o almoço quente."
César lentamente tirou sua cabeça da janela, olhando em volta para tentar entender onde estava. "Canedo." Pensou o cabo. A estrutura principal da usina ficava pouco mais à frente do caminhão, no topo de uma pequena colina. César pegou sua pistola e a pasta arquivo do porta-luvas, abriu a porta e saiu do veículo.
O cabo ficou alguns segundos parado, observando a grande chaminé de tijolos, abaixo do céu nublado. Ele colocou sua arma no coldre da cintura e se dirigiu à traseira do caminhão, para ajudar seu companheiro.
"Finalmente." Disse Santos. "Vamos."
César pegou uma das pontas da lona, levantando-a com seu companheiro, para revelar três pessoas deitados no chão. Os dois soldados entraram no veículo, e começaram a levar aqueles homens para fora. Após botar o último deles de joelhos no gramado, César começou a retirar os sacos de pano de suas cabeças.
O homem do meio vestia um terno cinza listrado, um par de sapatos de couro e uma gravata vermelha, enquanto os dois outros vestiam apenas regatas brancas e calças beges, além de sandálias de couro.
"Então…" Disse Santos, retirando seu fuzil das costas. "Acho que vocês sabem como isso funciona. O sargento pediu para dar uma última chance de vocês dizerem onde está isso aqui."
Santos estendeu a mão para César, que o entregou a foto do objeto.
"Bom, não posso prometer nada, mas talvez vocês escapem de virar churrasco, e fiquem simplesmente em uma cela. O que acham?"
Os homens permaneceram em silêncio, olhando fixamente para a foto.
"Tudo bem, tudo bem. Sei que a oferta não foi muito honesta. E provavelmente seria melhor morrer do que voltar pras mãos do delegado, não é?" Nenhuma resposta. "Vamos fazer assim então, na maior sinceridade, ou vocês falam onde está essa porra, e eu dou um tiro na cabeça de cada um logo, ou vocês não dizem, e aí a gente vai ver qual aguenta mais tempo na fogueira. Que tal?"
"Quem vocês pensam que são?" Disse o homem no centro. "Vocês acham que só pelo seu general estar no gabinete presidencial, vocês controlam tudo que acontece no país? Vocês são ridículos. Nós três, somos nada. Já cumprimos nosso papel. E nada que você oferecer aqui vai nos fazer mudar de ideia. Na próxima, que tal comprar alguma coisa no leilão, ao invés de tentar destruir ele? Assim você acaba levando alguma coisa para casa, e todo mundo ganha."
"É… Talvez você tenha razão. Mas eu não dou a mínima. Meu trabalho é dirigir um caminhão e soltar bala em filhos da puta como vocês. E aí, nada? Bom, vocês que sabem. Vem César, me ajuda aqui."
O homem do meio foi sendo arrastado pelos dois soldados em direção aos fornos da usina. Chegando nos espaços, César abriu a primeira escotilha, derramou o óleo dentro e ajudou Santos a colocar o homem dentro daquele pequeno espaço. Depois fechou a escotilha, acessou o compartimento de baixo e jogou um fósforo aceso dentro.
Em um segundo o calor já fazia os dois soldados suarem, enquanto era possível ouvir os gritos de agonia do homem em chamas. Os dois se dirigiram de volta ao caminhão, levando o segundo homem para o mesmo destino.
Ao levar o terceiro para as fornalhas, o mesmo quebrou seu silêncio. "Por favor, por favor não! Calma, eu falo, eu falo onde tá."
"Ah. Já era hora." Disse Santos. "Vamos, fala."
"É um armazém, no meio da estrada, na 213 com a 153. Armazém C-08." Disse o homem. "Agora por favor me mata, não me faz queimar, me mata antes."
"GO?" Perguntou César, anotando na pasta arquivo em sua mão.
"Sim. Sim. Agora, por favor, vamos."
"Por quê você falou?"
"Você acha que eu devo tudo àqueles caras? Eu era empregado. De fora. Eu não quero saber das merdas que eles fazem, eu só levo o carregamento. Se eu sair daqui, eles me matam, de um jeito muito pior que uma fornalha. E aqui, se eu posso escolher, eu prefiro morrer rápido. Agora por favor. Acaba logo com isso."
Santos retirou novamente seu fuzil das costas, em seguida dando um tiro de misericórdia na cabeça do homem. Os dois soldados logo colocaram seu corpo na fornalha, repetindo o mesmo processo de antes.
César parou por um segundo, finalmente percebendo o cheiro que se espalhava pelo local.
"Vamos logo, Santos." Disse o cabo, sentindo o embrulho em seu estômago. "Vamos limpar essa merda e dar o fora de uma vez."
"Que horas são, César?" Perguntou Santos, acendendo um cigarro.
"Meio dia e quarenta."
"Porra. Vamos ter que se contentar com almoço frio. De novo."
"Nem sei se eu quero almoçar hoje."
O caminhão cruzava sozinho aquela imensa estrada que passava entre morros e campos, enquanto estremecia a cada buraco no caminho. Mesmo estando nublado, era possível ver alguns raios de luz atravessando o céu de fim de tarde, ao mesmo tempo que alguns pingos se chocavam contra o para-brisa do veículo. César mantinha sua cabeça encostada na janela, enquanto Santos olhava determinado para o asfalto à sua frente.
"De volta na estrada, não é, César?" Santos disse com um suspiro, em um tom quase sarcástico, tentando quebrar o silêncio que se estabelecera no veículo.
César não prestou atenção na fala de seu companheiro.
"César?"
"O quê?" Respondeu rapidamente o cabo, tirando sua concentração do horizonte.
"Esquece."
"Tudo bem…"
"O lugar é na 213 com qual mesmo?"
"153." Respondeu César, olhando a anotação em sua mão.
"Estamos perto." Disse Santos, por fim.
César voltou sua atenção à paisagem. O cheiro parecia estar preso às suas narinas e os gritos pareciam ecoar em sua mente, e tudo isso fazia seu estômago vazio se revirar. O cabo respirou fundo, voltando a se concentrar nas montanhas que se estendiam pelo horizonte.
"Deve ser isso aqui." Disse Santos, desacelerando o veículo.
"É. Parece mesmo." Concordou César, pegando sua pistola do porta-luvas e um pé de cabra que estava ao seu lado.
Santos parou o veículo em um pátio vazio, ao lado da grade que cercava o complexo.
"Aqui está bom." Disse Santos, saindo do caminhão. "Anda César, não quero pegar essa chuva."
Os homens deixaram o veículo, entrando na área e passando pelos caminhos estreitos que atravessavam o complexo, se guiando pelos grandes números brancos pintados acima das portas de cada armazém, até chegar no local anotado.
"C-05… C-06… 07… Aqui." Disse César, apontando para a porta de metal à sua frente.
"Beleza. Um segundo que eu já…"
Santos chutou a porta uma vez, sem sucesso.
"Porra. Eu pensei que isso era mais fácil. César, tenta você, eu vou ver se tem uma janela atrás ou alguma coisa assim."
César tentou usar o pé de cabra para abrir a porta, porém não obteve sucesso.
"César!" Exclamou Santos, da parte traseira do pequeno armazém. "Vem aqui!"
O cabo contornou a estrutura até encontrar seu companheiro, que estava agachado observando um cadeado no chão.
"Acho que é mais fácil por aqui."
César pegou o pé de cabra, colocou uma das extremidades no centro do cadeado e quebrou o objeto, possibilitando a entrada dos dois soldados na estrutura.
"Boa." Disse Santos. "Vamos, me dá uma mão."
Os dois soldados pegaram a base da porta retrátil, levantando-a sem muito esforço. Abrindo o portão, os homens entraram no armazém, se deparando com duas caixas de madeira e um corpo no chão do primeiro piso.
"Que merda é aquela?" Perguntou Santos.
"Vou ver, vai olhando as caixas." Disse César, se dirigindo ao corpo, com sua pistola em mãos.
Se aproximando, César pode confirmar. "Morto." Pensou, vendo uma nuvem de moscas voar do rosto do cadáver, que estava completamente desfigurado. "Alguém realmente não gostava desse cara." Voltando-se para Santos, o cabo viu que seu companheiro havia encontrado alguns documentos.
"E aí?" Questionou César, guardando sua pistola.
"Acho que é isso." Respondeu Santos. "Vamos logo, não acho que esse lugar é definitivo. Me ajuda aqui."
Os dois homens pegaram a caixa maior primeiro, saindo do armazém de volta ao caminhão, abaixo do chuvisco que começava a ficar mais forte.
César fechou a porta do caminhão, se ajeitando no assento, pronto para dormir na viajem de volta, mas o frio e o som da chuva atrapalhavam seus planos.
"E aí, Santos." Disse César, sonolento. "O que tem nas caixas?"
"Sei lá, ué. Eu não abri." Respondeu Santos.
"Mas você não leu os papéis deles?"
"Ah sim, mas só dizia alguma coisa tipo 'tapete' e 'lança'. Era uma tabela, na verdade, com os códigos, os preços e tudo mais."
"Entendi… Vai passar pela usina?"
"Melhor, dando a volta tem mais curvas, e você sabe que esse caminhão não gosta de um piso molhado."
"É, eu lembro da última vez."
A escuridão começava a tomar conta da estrada, enquanto a chuva dificultava mais ainda a visão do motorista. Santos começou a dirigir mais lentamente o veículo, enquanto cerrava seus olhos para evitar algum acidente.
"Sabe o que eu mais odeio nessa merda?" Perguntou Santos.
"O quê?"
"A falta de poste. Como alguém consegue dirigir de noite nisso?"
"O Matias disse no almoço que o Costa e Silva estava querendo iluminar as estradas."
"Deve ser mentira, disseram que o Castelo ia fazer a mesma coisa."
"Ainda bem que quem dirige é você, pra mim tanto faz." Disse César, dando uma leve risada.
"Ah, vai se foder, César."
"Ei, Santos?"
"Fala."
"Esse carro tá atrás da gente há um tempo?"
Santos olhou para o retrovisor. "Acho que sim. Por quê?"
"Não sei, mas a gente passou por umas duas cidades, e a gente está bem lento. Por quê ele só não passa logo?"
Santos bateu na buzina com força. "Opa!" Santos exclamou, virando seu rosto para a janela aberta do veículo. "Pode passar!"
Nenhuma resposta ou reação do carro.
"Mas que porra…" Santos buzinou novamente, colocando parte de sua cabeça para fora da janela. "Ei! Você tá me ouvindo? Eu disse que…"
Um tiro repentino acertou o retrovisor, pouco abaixo da cabeça do soldado.
"Filho da puta!" Gritou Santos, voltando para dentro do caminhão e afundando seu pé no acelerador. "César, me ajuda porra!"
César retirou sua pistola do porta-luvas e se virou para trás, tentando acertar o veículo pela pequena janela na parte de trás da cabine do caminhão. O cabo deu três tiros, porém apenas um acertou o carro, em um dos faróis.
"Relicário?" Perguntou César.
"Claro que é!" Respondeu Santos.
"Puta merda. Você trouxe o fuzil?"
"O que você acha?"
"Boa, seu idiota."
Mais um tiro vindo do carro acertou a traseira do caminhão.
"Eu não tenho pente sobrando, Santos."
"Cacete, a gente tá quase chegando em Canedo, só assusta eles mais um pouco."
"Santos, o quartel é na casa do caralho, em que Canedo ajuda a gente?"
"A fábrica."
O carro começou a acelerar, tentando chegar ao lado do caminhão, enquanto mais três tiros foram disparados contra os soldados.
"Fecha eles, Santos!"
Santos virou o veículo, conseguindo manter o carro atrás de si. César se levantou de novo, atirando mais duas vezes, ainda sem acertar os alvos.
"Aqui!" Exclamou Santos, fazendo a curva em uma rua que contornava a cidade. "A gente tá quase lá, descarrega tudo neles!"
César disparou as últimas duas vezes contra o carro, vendo que seu último tiro acertou o para-brisa, talvez acertando o passageiro, porém, dada a escuridão, era impossível de confirmar. A única coisa que o cabo tinha certeza, era de que o veículo estava desacelerando, conforme os postes começavam a iluminar o caminho. Ao ver o carro virar em uma rua que entrava na cidade, César se sentou novamente, dando um suspiro aliviado.
"Eles foram embora?" Perguntou Santos.
"Sim." Respondeu César, ofegante. "Falta muito?"
"Acho que é logo ali na frente."
Santos parou o caminhão na frente do portão da grade que cercava o terreno, buzinando quatro vezes. Rapidamente um soldado saiu da porta principal da fábrica, correndo na chuva para abrir o portão.
"Como você sabe desse lugar?" Perguntou César.
"Eu dirigi o Osório pra cá uma vez."
"Entendi…"
"Então, o que temos aqui?" Disse o sargento, com o nome 'Borges' estampado em seu uniforme.
"Recuperação de carga, senhor." Disse Santos.
"E esses buracos no caminhão?"
"Relicário, senhor." Respondeu César.
"Tudo bem… Vocês são de qual batalhão, soldados?"
"58º de Infantaria Motorizada, senhor." Disse Santos.
"Ah, pertinho do alto escalão, não é?"
"Acho que sim, senhor."
"Bom, temos um pessoal que pode fazer a análise aqui, e podemos mandar vocês dois e o caminhão todo para lá, mas vão ter que esperar até amanhã. Precisamos de um tempo para ligar a máquina e meus homens daqui já foram se deitar, então de manhã resolvemos isso. Ah, não temos camas sobrando, vocês vão ficar bem?"
"Sim senhor, podemos ficar no caminhão mesmo."
"Bom, então está tudo ótimo. Vou fazer um relatório agora mesmo. Mateus!" Disse o sargento para um soldado próximo. "Leva as caixas lá para baixo. Vocês dois, dispensados." Finalizou, virando-se de costas para os soldados e se dirigindo à escada principal da estrutura.
César e seu companheiro se ajeitaram na cabine do caminhão, deitando seus assentos.
"César?"
"Fala."
"Quando a gente voltar, tá a fim de mudar de posto?"
"Limpeza? Ou guarda?"
"Guarda né, pelo amor de Deus."
"Fechado."
FTM PT11-∆ ("Soldados de Papel")
[[=PT11.jpg size="small"]]
Missão da Força-Tarefa: Originalmente designada para ser a principal força de combate da Fundação durante o regime militar no Brasil, em resposta aos crescentes ataques da Superintendência Brasileira do Paranormal, a FTM PT11-∆ era composta por quase cem operativos com treinamento militar, focados na contenção de objetos e na eliminação de membros da SBP. Após a dissolução do GdI, a FTM PT11-∆ foi drasticamente reduzida, tendo a maioria de seus operativos realocados para outros postos da Fundação. Atualmente, a FTM mantém seus objetivos originais, porém atuando em menor escala.
Assistência na Contenção dos Objetos: [SCP-095-PT]
1 - Mensagens
SUPERINTENDÊNCIA BRASILEIRA DO PARANORMAL
NOME DO OFICIAL ENCARREGADO
LOCAL E DATA
DE:
PARA:
ASSUNTO: UMA PEQUENA FRASE QUE RESUME O CONTEÚDO
ADENDOS: OPCIONAL, CASO NÃO HAJA ADENDOS, COLOQUE " / "
CONTEÚDO DA MENSAGEM
ADENDOS E SEUS CONTEÚDOS
Ass.: assinatura de quem escreveu a mensagem (pode trocar a fonte)
ORDEM E PROGRESSO
2 - Relatórios de Inimigos de Estado10
SUPERINTENDÊNCIA BRASILEIRA DO PARANORMAL
NOME DO OFICIAL ENCARREGADO
RELATÓRIO DE INIMIGO DE ESTADO (NÚMERO QUALQUER)
NOME:
IDADE:
SEXO:
ESTADO CIVIL:
NATURALIDADE:
PROFISSÃO:
ATIVIDADE: POR QUE O INDIVÍDUO É UMA AMEAÇA, INTEGRANTE DA ORGANIZAÇÃO X, ASSASSINOU O MILITAR Y, ASSALTOU O LOCAL Z, ETC.
CARACTERÍSTICAS PARANORMAIS: DESCRIÇÃO DETALHADA DA ANOMALIA.
AÇÕES TOMADAS: O QUE FOI FEITO PARA ELIMINAR O INDIVÍDUO OU SE FOI POSSÍVEL MANTÊ-LO PRISIONEIRO OU SE ELE CONTINUA ATIVO.
NOTAS: OPCIONAL
ORDEM E PROGRESSO
3 - Relatório de Organização Terrorista11
SUPERINTENDÊNCIA BRASILEIRA DO PARANORMAL
NOME DO OFICIAL ENCARREGADO
RELATÓRIO DE ORGANIZAÇÃO TERRORISTA (NÚMERO QUALQUER)
ORGANIZAÇÃO: (NOME DA ORGANIZAÇÃO)
LÍDER(ES):
CRIADA EM:
NÚMERO DE INTEGRANTES:
CONDIÇÃO: ATIVA, INATIVA, DESCONHECIDA, ETC.
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VISÃO GERAL:
AÇÕES TOMADAS:
NOTAS:
ORDEM E PROGRESSO
Eu abro meus olhos de repente. A primeira coisa que eu vejo é minha mão tremendo no cabo de minha lança, em seguida a multidão a minha volta e, finalmente, ele. Eu olho confuso para os soldados que tentam conter a gritaria, esperando alguma ordem ou indicação, mas só ouço palavras abafadas.
Uma mulher puxa meu capacete por trás e instintivamente eu a empurro com toda minha força. Olhares de ódio me cercam enquanto eu me afasto de costas. Uma pedra me atinge no peito, fazendo eu me virar e correr em direção ao corpo erguido do homem pálido.
Mais pedras cruzam minha vista. Mais gritos atravessam minha mente. Eu vejo três raios de luz passarem pelas nuvens e se encontrarem na cruz de madeira. Eu tento correr mais rápido. Um soldado exclama meu nome, mas eu não dou atenção. A imagem quase artística dos três condenados se aproxima de mim. Eu tropeço em algo e caio de joelhos, em frente aos pés dele.
Os raios de sol batem em seus olhos, que lentamente se movem para me encarar. Eu me levanto. Sua expressão de tristeza se torna uma de imensa dor enquanto, sem pensar, eu forço minha lança entre suas costelas. Eu ouço e sinto o metal cortar a carne e serrar o osso até que meus braços se cansam.
Tudo fica em silêncio. Tudo menos ele. Sua boca se abre, deixando escapar um alto suspiro, que dura o que parecem ser horas, até finalmente abaixar e sumir.
Eu saio de meu transe ao ser tocado no ombro por Cícero.
"Não tem como segurá-los por muito tempo! Vamos embora!"
Eu aceno de leve com a cabeça, antes de lentamente começar a retirar minha arma do tórax a minha frente.
Até que, finalmente, sangue. Do buraco que fiz, quantidades imensuráveis daquele líquido jorram em minha direção. Tão negro quanto o céu da noite e ao mesmo tempo tão transparente quanto a água. Eu sinto ele tocar meus cabelos, escorrer pela minha testa, cruzar meus cílios e se encontrar com meus olhos.
Eu grito o mais alto que posso e caio de costas no chão.
Meus olhos se tornam uma massa viscosa que lentamente pinga na terra.
E tudo fica escuro e silencioso.
"Evocati, por favor, me ajude!"
"Acalme-se, homem. O que é isso?"
"Longino se feriu em Gólgota! Apenas olhe para ele!"
"Mas o que… Rápido, chamem um curandeiro! Como isso aconteceu, soldado?"
"Eu… senhor, eu não faço ideia. Em um momento ele estava de pé ao meu lado e no outro estava estendido no chão, eu não sei como…"
Eu me esforço para dizer algo, mas acredito que apenas grunhidos saiam de minha garganta.
"Por aqui, Augusto."
"Deite-o na mesa, por favor."
Eu sinto algo frio passar por meu rosto.
"Mas… mas não há nenhum sangramento."
"O que?"
"Quem fez isso, soldado?"
"Eu… eu não sei. Eu não sei. Eu não vi ninguém perto dele."
"Abra a boca dele e dê isso para beber. Farei o meu melhor."
Novamente, silêncio e escuridão.
Eu lentamente caminho, me agarrando com firmeza em meu colega, esperando afundar meus pés em buracos na estrada que nunca chegam.
"Sente-se aqui, irei falar com o tribuno," Cícero me diz, enquanto me abaixa suavemente.
Me encostando na pedra fria da escadaria, eu ouço os passos de meu amigo se afastarem, enquanto o sol impiedoso esquenta meu rosto. Pássaros cantam ao meu redor e a areia e terra do chão saltam com o vento. Eu tento imaginar as casas, as tendas, as pessoas e as árvores, mas de nada adianta. Apenas sons das coisas que eu costumava ver permanecem.
"Eu lhe imploro, senhor. Apenas veja o estado dele!" Cícero volta gritando.
"Pois então me mostre." A voz rouca do homem que uma vez conheci arranha meus ouvidos.
"Irei tirar as faixas, Longino. O tribuno exige ver seu ferimento."
A mão de Cícero agarra a ponta da bandana envolta em minha cabeça e começa a puxá-la. Eu sinto o pano deixando de encostar em minha pele enquanto os buracos que abrigavam meus olhos passam a ser exibidos para o oficial.
"Sagrada Meditrina! Como é…"
"Não sabemos, senhor, mas o homem não pode ver mais nada. Acredita em mim agora?"
"Por favor, cubra isso. Eu… posso lhe dispensar do serviço, mas uma remuneração será impossível."
"Como assim 'impossível'?"
"Tempos difíceis, soldado. Não posso fazer nada, é além de meu poder. Irei assinar seu documento, aguardem um instante."
Eu ouço Cícero suspirar e se sentar ao meu lado.
"Parece que ninguém do governo está disposto a lhe oferecer uma ajuda. Acredito que podemos tentar pedir esmola na vizinhança, se sua condição se tornar um problema muito grande. Me desculpe, amigo."
"Não… não faz mal. Há meu pai na costa ao Norte, sei que conseguirei pelo menos um teto e alimento com ele."
"Quer que eu te leve até lá?"
"Já é tarde. Tudo que desejo agora é descansar."
Os passos arrastados do tribuno se aproximam de nós, interrompendo a conversa.
"Aqui, tome. Volto a falar, isso é tudo que posso fazer. Tenham um bom dia."
Cícero logo me ajuda a levantar. Me apoiando nele, nós caminhamos lentamente em direção à minha casa. Eu ouço crianças brincando, o vento batendo nas folhas de árvores, alguém trabalhando ao fundo e mais alguns bichos no trajeto. Mas ainda estou me afogando na escuridão. Em algum momento meu amigo me solta, enquanto eu encosto na parede fria de adobe de minha morada.
"Vai ficar bem mesmo?"
"Acredito que sim. Sei que tenho algo para comer ainda aqui. Obrigado."
"Irei voltar amanhã. De qualquer forma vou avisar Inácia de seu problema."
"Agradeço imensamente, Cícero. Vá, irei me deitar um pouco."
"Até mais, amigo."
Eu cambaleio pela minha porta, busco com minhas mãos minha cama e me deito nela. Presto atenção em todos os sons ao meu redor antes de sentir minha mente se acalmar.
A lança que perfurou o divino! Rápido, coloque um pouco da terra manchada na bolsa e vamos, Marcellus nos aguarda.
Eu acordo com um salto. Sinto meu coração bater mais rápido que de costume. Minhas mãos tocam a poça de suor que se formou em minha cama enquanto minha seca garganta implora por água. Estico meu braço para longe, procurando a ânfora, mas não encontro nada. Lentamente fico de pé e começo a andar em busca de minha única fonte de bebida no momento.
"Divino? Impossível. Um… um mero blasfemo. Um difamador e…"
Eu me calo ao sentir meu joelho se chocar contra a ânfora de barro. Tento me abaixar e segurá-la, mas é tarde. Eu ouço os cacos saltarem pelo chão enquanto a água se espalha entre meus pés.
Me sento no chão, com as mãos em cima das ataduras, me forçando para soltar lágrimas que nunca saem.
"Divino… Divino! Fui eu quem matou o santo! Fui eu quem perfurou seu corpo sagrado e o fiz sorrindo! Tenha piedade de mim, eu lhe imploro!"
Espero uma resposta para minha súplica, mas nada acontece. Permaneço sentado por alguns minutos, até me levantar e lentamente procurar pela porta com as mãos. Ao sair, o vento frio da noite logo atinge meu rosto, fazendo meu queixo tremer levemente. Forço minha memória para lembrar a direção da casa de meu pai e começo a andar pela estrada de terra.
Ergo minha cabeça, por mais que não haja ninguém para observar o que resta de meu orgulho, enquanto caminho pelos montes de areia que se estendem entre minha casa e a costa do Morto.
Cerca de uma hora se passa. Em algum momento tropeço no que parece ser uma pedra e caio com as mãos no chão. Eu sinto feridas se abrirem em minhas palmas e meus joelhos, mas me levanto e volto a andar.
Mais algum tempo se passa. Meu estômago começa a se remoer pela falta de alimento e a sede ainda castiga minha garganta. Sinto pedras entre meus pés e minhas sandálias ao passo que o vento frio continua a gelar minha espinha. Mesmo assim, continuo andando.
Sinto que já deveria ter alcançado a margem, mas já perdi a noção do tempo e meu senso de direção. Considero me virar para a esquerda, mas admito para minha própria mente estar perdido. Minhas pernas começam a ficar trêmulas de cansaço. Meus dedos começam a doer pelo frio.
Em algum momento, eu colapso ao chão.
Ótimo, ótimo! Pensei que tomariam tudo na área antes de chegarem. É perfeito. Coloque a terra em um dos frascos e acenda uma tocha, temos muito trabalho pela frente.
Eu acordo sentindo uma mão em meu rosto.
"Levanta, Longino."
"Quem…"
"Não importa. Apenas fique de pé."
"Não… eu não consigo."
"Consegue sim. Vamos, eu te ajudo."
O sujeito me agarra pelos braços enquanto me esforço para ficar me levantar.
"Viu? Agora anda, falta pouco."
"Pouco? Pouco para…"
"Você verá. Venha."
Arrastando meus pés e me segurando nesse indivíduo, eu lentamente volto a caminhar. Andamos juntos por mais alguns metros até que começo a escutar o som de ondas batendo de leve na costa.
"Ouviu? Você… ouviu a minha prece?"
"Claro… claro que ouvi, Longino."
"Eu posso ser… perdoado?
"Mais um pouco e você será. Continue andando."
Sinto meus pés caminharem sobre grandes pedras, deixando a areia para trás.
"Aqui. Pare aqui."
A brisa e o cheiro do mar se encontram com minha cabeça rapidamente.
"Quem… quem é você?"
"Um amigo. Um mensageiro. Um protetor."
"Eu fui perdoado?"
"Ainda não. Só há uma coisa que precisa fazer para provar seu arrependimento."
"Qualquer coisa… Eu faço qualquer coisa…"
"Ótimo, ótimo."
As mãos do sujeito encostam por meio segundo em meu peito enquanto sou jogado para trás. Tento me segurar em alguma coisa na escuridão em que me encontro, mas não há nada que eu possa fazer. Meu corpo fica leve quando meus pés deixam de tocar o chão e começo a cair.
Até que minha cabeça se choca contra algo duro.
Eu giro algumas vezes no ar até finalmente cair na água, com meu rosto virado para baixo.
Sem conseguir me mover, eu permaneço consciente por pouco tempo, sentindo a água salgada e o sangue entrarem por minha boca e preencherem meu corpo.
Uma última vez, escuridão e silêncio.
Acha que funcionou?
Só há uma maneira de ter certeza.
Eu abro meus olhos.
Eu abro meus olhos e vejo cores.
Eu abro meus olhos e vejo formas.
Eu abro meus olhos e começo a chorar.
Lágrimas atingem minhas pernas enquanto me sento no chão, onde permaneço por um longo tempo.
Lentamente me recompondo, começo a observar meus arredores. Nada além de flores azuis se estendem pelo horizonte em todas as direções. Eu pego uma mais próxima de mim e a aproximo de meu nariz.
"Alkanna," penso, me lembrando dos pés que meu pai cultivava em sua casa.
Eu fico de pé, observando minhas mãos a procura de algum ferimento, mas não encontro nada. Eu fecho meus olhos e os toco por cima de minhas pálpebras.
"Um sonho?"
Sinto uma brisa suave passar por mim, me fazendo abrir os olhos novamente.
Em meio ao infinito campo azul, eu vejo uma colinha, com uma imensa oliveira no cume. A mesma oliveira que se encontrava perto da casa de meu pai. A medida que lembranças de minha infância enchem minha mente eu começo a caminhar em direção à árvore.
Antes de ficar embaixo da sombra, eu olho para o céu, vendo que não há nuvens e nem um sol. Voltando a encarar a oliveira, dou mais alguns passos até ficar em frente ao grande tronco cinzento. Toco na madeira levemente ao mesmo tempo que me lembro do que ocorreu minutos atrás.
"Eu estou…"
"Sim, Longino," uma voz de trás do tronco exclama, me interrompendo.
De minha direita surge um ser que não consigo compreender. Um homem e uma mulher? Um idoso e uma criança? Um nobre e um pobre? Todos em um único ser. Com o dobro de minha altura, vestindo uma imensa toga da mesma cor das flores ao meu redor, com uma esfera de fogo pairando sobre sua cabeça. Mesmo sem sentir tristeza ou alegria, lágrimas começam a cair de meus olhos perante sua presença.
"E esse é seu próprio paraíso, Longino. O local onde poderá descansar sua alma. Um plano espiritual, se preferir."
"E… o que é…"
"Sou um amigo. Um mensageiro. Um protetor."
Eu fico de joelhos.
"Obrigado! Obrigado. Eu… eu nunca pensei que pudesse ser perdoado pelo que fiz, eu…"
"Fique de pé, Longino. Isso é uma prova de compaixão, mas seu dever não acabou. É preciso que continue a seguir as ordens dele."
"Sim. Sim, eu aceito."
"Ótimo, ótimo. Há apenas um trabalho para ti: guiar aqueles que, mesmo com a visão intacta, permanecem cegos."
"E… como farei isso?"
"Quando chegar a hora, saberá."
Eu pisco por meio segundo, e a figura desaparece. Sou deixado com minha mente e meu infinito campo florido, sozinho. Me sento no pé da oliveira e respiro profunda e calmamente.
Em meio ao silêncio absoluto do local, eu caio no sono.
Não podemos. Com seu desaparecimento, isso é tudo que nos resta.
E para onde iremos?
Hatay.
E o restante das relíquias?
Queime tudo. Precisamos apenas encontrar as demais, agora.
Espero que saiba o que está fazendo, Marcellus.
Pedro Bartolomeu era um homem pobre, supersticioso e louco.
Quando o monge descalço gritou no meio da noite que foi recebido pelo próprio Santo André, todos os soldados riram. Todos menos Raimundo.
"Onde?"
"A Igreja de São Pedro! Em Antioquia!"
"Antioquia? Onde raios fica isso?"
"O santo me mostrou, fica no centro do Monte Starius!"
Raimundo suspira por um segundo, pensando se realmente valia a pena seguir o pequeno homem.
"Espero que saiba o que faz, Pedro."
A noite passou rapidamente. O monge ficou todo o tempo ansioso pelo que o aguardava, enquanto o soldado repensava suas escolhas.
Quando o exército voltou a marchar pela manhã, Pedro e Raimundo saíram da rota e caminharam em direção ao grande monte que podia ser visto no horizonte. A viajem foi árdua, mas os homens estavam acostumados. Felizmente não houve nenhum grande problema no caminho, a não ser a grande fome que começava a tomar conta dos dois.
Apesar de tudo, em menos de um dia, eles se encontravam perante a pequena igreja de pedra inserida no morro. Raimundo esperava que um local que guarda uma relíquia sagrada fosse grandioso, mas aquilo não abalou sua confiança. Ele estranhou, no entanto, a existência de três estrelas de seis pontas penduradas no topo da parede externa. Pedro correu pela porta principal, deixando seu companheiro para trás.
O soldado entrou cautelosamente. O interior do local parecia mais com uma caverna que uma igreja. Suas paredes eram irregulares e não havia nenhuma decoração ou pintura, exceto a pequena estátua de mármore na parede atrás do altar. O monge já estava retirando os ladrilhos do centro da área enquanto Raimundo passava por ele para examinar os objetos ao seu redor.
Ele começou observando a parte frontal do estranho altar. Também composto por mármore, os únicos detalhes visíveis eram as iniciais "A" e "W" cravadas na pedra, com um estranho símbolo entre elas. Raimundo passou pelo bloco branco e se deparou com algo que ele nunca havia visto antes em uma igreja. Um trono. Assim como tudo no local, o assento era feito de pedra e em seu encosto havia o mesmo símbolo gravado no altar.
Raimundo encostou seus dedos na estranha insígnia, mas nada aconteceu. Por fim, ele voltou sua atenção para a estátua na parede. Certamente possuía as feições de São Pedro, que ele já viu tantas vezes em tapeçarias e escrituras, mas havia algo de estranho com o corpo da figura. Não haviam braços, sua vestimenta parecia com a de um soldado qualquer e suas pernas eram extremamente longas. Apesar disso, Raimundo sabia respeitar a decisão artística de escultores, então não deu muita atenção ao objeto.
"Raimundo! Raimundo eu encontrei!"
O soldado se virou rapidamente e correu em direção ao pequeno buraco que seu companheiro fez. Em meio à terra espalhada ele viu a pequena ponta acinzentada da lança lendária.
"Santo Deus. Rápido, tire isso daí, temos que ter certeza."
O monge segurou a ponta e facilmente retirou a longa arma do chão. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, uma figura desconhecida o interrompeu.
"O que procuras, minha criança?"
Pedro arregalou os olhos do fundo do buraco, apertando a lança com firmeza. Raimundo, por outro lado, caiu de costas no chão, maravilhado com a presença do homem à sua frente.
"É… é um anjo?" O monge perguntou, com a voz trêmula.
O legionário, contudo, permaneceu em silêncio.
"Responda a pergunta dele Pedro!"
"A vitória. Precisamos da vitória nesse eterno combate! Precisamos de força para derrotar nossos inimigos! Nos ajude, por favor!"
Longino parecia confuso.
"Sinto… sinto que não posso lhe ajudar com isso."
E em um piscar dos olhos, ele se foi. Os homens não conseguiram nem processar a resposta, já que ainda estavam em choque com relação ao ocorrido.
"Era real. Foi tudo real!" Pedro exclamou.
"Santo Deus, santo Deus…"
"Anda, Raimundo, temos que contar aos outros!"
O soldado ajudou o monge a sair do buraco e, em poucas horas, os dois estavam de volta no caminho para encontrarem seu exército.
A maioria dos oficiais acreditou no relato dos dois homens e, assim, ao invés de recuarem mediante a imensa fome que os soldados sofriam, eles continuaram lutando. Em apenas cinco dias os cruzados tomariam toda a região da Antioquia, abrindo espaço para a vitória final na longa batalha que enfrentavam.
Contudo, nem todos acreditaram na palavra de Pedro por muito tempo. Alguns sacerdotes consideraram as falas dele como um sacrilégio, por mais que alguns ainda o apoiassem.
Para provar suas visões, o monge precisou correr por paredes de fogo, e apenas se sobrevivesse sua palavra seria considerada verídica.
Pedro Bartolomeu resistiu por doze dias, agonizando sozinho em meio ao exército. Sua existência foi esquecida por nobres e oficiais, mas os poucos soldados que acreditaram em sua visão mantiveram sua memória viva e, acima de tudo, a sagrada relíquia segura.

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