O SCP PERDIDO
Está a chover lá fora. O frio que acompanha as gotas geladas que caem sobre a terra me faz companhia aqui dentro. As últimas horas… dias, não sei ao certo, foram o ápice de uma grande paranoia ou alguma coisa que minha mente humana não consegue formar algo concreto para se construir um raciocínio lógico de tudo isso. Mas eu nunca me permitiria ser apagado dos anais da história. Jamais. Para alguns, podemos ser apenas valores lógicos de um grande banco de dados da Fundação, mas nem todos trabalham pelo dinheiro ou razões fúteis. Não permitirei que minha história termine com uma transferência para algum tipo de arquivo morto.
Minha cabeça dói um pouco. Mas meu pequeno “conhecimento médico” me permite dizer em uma breve avaliação que não corro risco de vida, apesar de um pouco de sangue que notei em minha mão após apalpar uma região da cabeça escolhida aleatoriamente.
Desde criança gosto de escrever meus pensamentos. Estudava para provas dessa forma, ajuda a fixar tudo e pensar com calma. E este pequeno relato faz parte de uma dessas tentativas malucas para descobrir o que puder.
Tudo começou após meu envolvimento com o caso do zero…. zero… já não lembro nem ao menos aquela maldita serial! Durante alguns dias a Fundação me questionou sobre meu envolvimento com o incidente. Disse a eles realmente tudo que sabia, mas a verdade parecia muito mentira e logo fui posto sob vigilância. Meu pequeno recado aos superiores jamais deve ter chegado ao seu destino, do contrário estaria morto provavelmente.
De qualquer forma, meus dias dentro e fora da Fundação se mesclaram. Aquele sentimento estranho dentro daquelas paredes me acompanhava para onde eu fosse. Talvez a vigilância estivesse me causando isso. Talvez a Fundação tenha seus meios de vigilância incomuns com uso de algum tipo de “instrumento”, muitos são os boatos sobre objetos não catalogados, seções secretas e por ai vai.
Durante minha sagrada hora do café, uma ordem chegou até minhas mãos exigindo que toda rotina no período da tarde fosse substituída pra seção de entrada de novos objetos. Alguns funcionários me olharam diferente o que já era esperado, já que muitos querem trabalhar naquela seção. Devido inclusive a demanda de pedidos de transferência para lá, os superiores não costumam escalar pessoas fixas para o local, eles preferem emitir essas ordens em caráter de urgência. O segredinho está no fato de que é um serviço tranquilo, você não tem contato com os objetos, fica apenas atrás de uma sala digitando textinhos sobre os dados do objeto colhidos através dos esforços e sacrifícios dos agentes de campo que nem sempre voltam fora de um saco preto. E como a demanda não é muito grande, geralmente a pessoa escalada fica sem trabalho pra fazer e longe das salas de contenção. Divertia-me com as histórias dos novatos que tinham medo de encarar o trabalho, com medo de um possível contato direto com o que chegava….
Para a minha infelicidade, haviam três objetos aquele dia. Digo isso porque observei a existência de três pequenos containers embaixo da plataforma onde estava. O curioso é que devido a políticas da Fundação, a pequena sala operatória de dados onde estava é totalmente isolada do local de entrada dos objetos através de uma forte camada de um vidro escuro e blindado. O motivo pelo qual eu tinha acesso visual ao pessoal la embaixo empurrando os pacotes para a entrada das câmaras me é desconhecido. Então eu notei que não havia nenhum dado quanto ao terceiro pacote, e sem pensar muito levantei da cadeira e ativei o sistema de áudio exterior e pedi para que o pessoal aguardasse o objeto ser catalogado antes de manejado para dentro da instalação.
Havia um grupo levando o objeto, uniformizados como agentes de campo. Eles pareciam confusos e olharam pra minha direção. Em seguida os vidros em volta da minha sala escureceram, em um efeito que me arrancou um espanto. O vidro embora aparentasse apenas ser grosso, se revestiu com uma fumaça escura em seu interior, como se fosse oco por dentro. Fiquei em silêncio por alguns minutos e decidi terminar apenas os dois objetos que tinha acesso.
Pareceu-me estranho agentes de campo cuidando do transporte de objetos. Logo, a suspeita de quebra de sigilo ou de invasão, junto com teorias da conspiração subiu-me a cabeça novamente.
Coloquei a mão no bolso para retirar meu lenço e lembrei que estava carregando alguns frascos de ███████. Esse descuido que me levou a portar material de risco para fora da sala de teste de forma não autorizada, não poderia ser melhor exemplo de caprichos do destino. Depois da minha ultima experiência com a garotinha e aquela mulher misteriosa, descobri as consequências de não se envolver, e logo a ameaça de estar sobre aqueles longos interrogatórios de novo me fez tomar medidas drásticas. Quando me dei por conta, estava a utilizar o ███████ na tranca do alçapão de emergência da sala de dados para ter acesso a zona inferior onde os objetos deram entrada. Esquema do local impresso dos arquivos da instalação.
Descendo com cuidado as vigas de aço que dava suporte para a instalação, consegui chegar a salvo ao nível inferior, mas não havia sinal dos homens ou do objeto misterioso fora do catálogo. Mas apenas dois caminhos existiam ali, a entrada que foi por aonde os homens vieram, e o grande corredor que dava acesso ao interior da instalação.
Utilizei o código de segurança para pequenos riscos de quebra de contenção, alertando o setor sobre os suspeitos, foi a minha forma de dizer “Calma, estou ajudando”, mas tenho certeza de que não foi a melhor das ideias.
O corredor era longo e escuro, mas tinha pequenos carrinhos elétricos para transporte de menores cargas. Não era muito, mas me pouparia caminhada.
Uma das luzes do carrinho estourou me dando um grande susto. Segundos depois eu descobri que aquele pequeno incidente não foi algo espontâneo. Uma pequena luz mais adiante no túnel piscou e um buraco apareceu no carrinho, próximo onde estava minha mão. Estavam disparando armas silenciosas, e provavelmente eu era a caça. Abriguei-me como podia, deitando na parte de carga do carrinho, torcendo para que ele suportasse os disparos. Cada disparo me sentia na obrigação de procurar se alguma parte minha foi acertada. Não podia nem ao menos abandonar minha missão curiosa, pois entre o caminho de volta e os disparos, só o carrinho servia de proteção. A qualquer momento algum deles poderia descer e me abordar, esses malditos carrinhos de transporte não se movimentam rápido o suficiente para impedir alguém de descer deles em movimento.
Então, eu manobrei o carrinho para próximo da parede as cegas do que havia em frente, e desci dele ainda em movimento pela traseira. Mantive-me em sua cobertura, na esperança de que fosse perdido de vista e que ninguém iria perceber a minha manobra arriscada.
Meu carrinho bateu em algo. Essa foi a deixa pra que eu pudesse rolar até a parede ao lado e me esconder em uma bifurcação.
Uma pequena espiadinha me permitiu descobrir que o motivo da colisão era o outro carrinho, e que não havia mais ninguém lá. Escutei alguns passos e decidi me ocultar novamente. Era um grupo de cinco pessoas. Uma delas era uma mulher com uma tatuagem incompleta de uma cobra em seu ombro. Era a única parte exposta do corpo fora parte do rosto. Apesar de ser impossível identificar algum deles, tenho certeza de que nunca os vi por aqui. Estavam em ronda, me procurando provavelmente. Ligaram algumas lanternas de bolso do peito e estavam dando atenção as sombras, em busca de seu perseguidor. O medo de morrer começou a me subir a cabeça e isso não era bom, me tirava o raciocínio.
Um pedaço de vidro que voou do carrinho estava próximo ao meu pé. Se fosse pra morrer, pelo menos não seria sem lutar, e aquele pequeno pedaço de vidro seria minha chave para Valhala. Bom… eu estava em pânico, pensar assim de forma humorística me ajudava a contrabalancear os hormônios e a adrenalina, quem sabe me traria alguma esperança…
A mulher era a mais próxima da parede… Estava chegando perto… Mais alguns metros e estaria ao meu alcance. Assim que ela deu o passo certeiro, sai das sombras em posição de ataque, com minha arma mortal erguida com o coração dela na mira. Com uma incrível agilidade, como se soubesse da minha investida antes de acontecer, a mulher esquivou-se para trás e disparou uma arma estranha, parecia ar comprimido. Rasgou boa parte das minhas roupas e me arremessou cerca de dez metros para trás, onde quebrei a parede velha onde colidi, fraturando alguns ossos. O outro lado da parede tinha um buraco pelo qual cai, junto a uma boa quantidade de tijolos. Um deles acertou a minha cabeça e me fez desmaiar. Pouco antes de perder a consciência, eu tenho certeza de ter ouvido alguns disparos e a voz de comando de alguns agentes da Fundação, provavelmente era a resposta ao meu chamado pouco antes de entrar no túnel.
E aqui estou eu em uma sala escura, sem ideia de onde estou escrevendo o que posso com minha caneta de bolso pessoal. Pergunto-me quem eram aquelas pessoas e o que levavam para dentro da Fundação sem catalogar no sistema. Talvez algum material de sabotagem, ou um objeto perdido?
A VÍBORA PERDIDA
Ao passo de que minha vida se encurta e sinto que a morte logo me abraçará, meus únicos amigos neste lugar úmido e fétido são minha caneta de bolso e blocos de rascunho que sempre levo no meu bolso. Quem estiver a ler isto, vai deduzir que já estou morto. Provavelmente estarei mesmo…
DIA 01
Acordei com terríveis dores de cabeça, tão ruins que precisei de algumas horas pra tentar me levantar do chão. Coloquei a mão no cabelo e alisei boa parte do couro cabeludo, avaliando o estrago. Alguns detritos da parede que me choquei ainda estavam presentes, enroscados nos fios mal penteados me fazendo os confundir com alguns ferimentos que estavam já preenchidos com o sangue coagulado. Conforme meus sentidos e lembranças voltavam, a esperança de melhora da situação se afastava. Surgia repentinamente um cheiro horrível de queijo podre, talvez leite.
Certa parte do lugar estava úmido e embora estivesse morrendo de sede, certamente não era uma boa ideia se satisfazer nas grandes poças presentes, já que só com olhar eu já temo o toque, quanto mais ingerir. As paredes são feitas de tijolos cheios de musgo, aparentando serem tão firmes quanto os pés de um aleijado.
O estado deplorável do quarto me instigava a procurar pontos comprometidos nas paredes para que eu pudesse investir com o corpo e fugir, mas o cansaço me domina no momento, se não morrer fraco, morrerei sedento.
DIA 02
Talvez este esforço em registrar minha situação atual acabe em breve. A sala gelada onde me encontro começou a esquentar aos poucos, logo dores de cabeça e falta de concentração me acompanharão na marcha fúnebre. O prelúdio de uma morte por desidratação. Poderia passar o tempo descrevendo cientificamente o que acontece com o corpo nesta situação, mas o medo da morte não permite. Separar estes registros por dias é algo gozado, já que não tenho nada para tentar discernir o tempo além da intuição. Quanto tempo fiquei desacordado? Quanto tempo me sobra?
DIA 03
Ontem aconteceu algo estranho. Duas figuras brutamontes apareceram atrás das barras de aço que me prendem. Não conseguia ver direito e uma terceira sombra entrou em meus aposentos. Consegui ver quando chegou perto, era uma mulher de uniforme branco.
Quando ela veio, já estava no chão entrando em choque devido a desidratação, então ela colocou minha cabeça em seu colo, e aos poucos me serviu água, enquanto enfaixava minha cabeça prestando primeiros socorros. Com o melhor de minhas habilidades atuais, tentei focar a visão e ver seu rosto, esforço deveras inútil após perceber que sua face estava coberta por um estranho tipo de capacete. Tenho que dizer aqui que nunca bebi água tão boa quanto aquela. Um pano velho com palha foi estendido no chão em uma área seca e fui deixado lá para repousar após os cuidados. Palavras não saiam da minha boca, estava fraco demais para mover até mesmo os lábios. Quando retiraram minhas roupas a procura de ferimentos, temi que encontrassem essas anotações, mas pouca atenção foi dada as vestimentas. Uma bandeja com um virado composto de arroz e ovo com direito a farofa foi deixado do meu lado. Meus cumprimentos ao cozinheiro.
DIA 06
Um bom tempo se passou e já tenho uma ideia de minha rotina aqui. Alguém me traz comida e água, sempre acompanhada dos dois brutamontes uniformizados. Mas agora, menos debilitado, consigo descrever meus carcereiros. A pessoa que me traz alimento é diferente dos homens armados. Seu uniforme é branco, com uma cruz azul no capacete que oculta seu rosto, mas é possível perceber que no lugar onde estaria os olhos, existe uma coloração diferente, possivelmente algum tipo de recurso utilizado na confecção de suas vestimentas para permitir enxergar.
Apesar de descrever este uniforme peculiar, nada supera os bizarros armados. Um deles usa apenas uma boina, e o outro não, mas eles não possuem rostos! Sem nariz, sem olhos… nada mesmo! Ficavam apenas parados, me dava calafrios olhar para eles. Não dava pra dizer se me observavam ou se estavam com raiva ou alegres. Seu uniforme era verde, com um símbolo da bandeira do Brasil estampado no peito, porém, sem a faixa escrita ordem e progresso.
Nenhum deles dizia uma só palavra. Nem ao menos entravam na minha cela, apenas deixavam comida por baixo e algumas vezes retiravam um objeto estranho que emitia um feixe vermelho na minha direção durante alguns segundos e iam embora.
DIA 08
Estive procurando uma saída daqui, e a sorte me deu um vislumbre apenas de seu sorriso. Um dos tijolos na parede estava meio solto e esconde um grande espaço atrás, o suficiente pra ocultar minhas anotações. Não tenho certeza do que fariam comigo se as descobrissem.
Passei tempo suficiente aqui sem informações. Enquanto estiver vivo, viverei. Analisarei tudo que puder.
DIA 12
Alguns dos homens sem-rosto deixou cair um papel próximo a minha cela com um interessante conteúdo… após usar o pano embaixo da minha cama para puxá-lo, comecei a apreciar seu conteúdo. Parecia uma espécie de mapa, com instruções confusas. Por via das duvidas, deixarei anexado este papel em pobre estado nos meus registros secretos, oculto pelo tijolo na parede.
DIA 13
Acordei ouvindo alguns gritos, eram aterrorizantes mesmo para mim que trabalhei na Fundação. Um sem-rosto uniformizado andava pelo corredor, puxando alguém algemado pelos cabelos. Os gritos começaram a aumentar somados a pedido de socorro. Então o uniformizado parou e tive a impressão que seu rosto estava olhando para mim. O que aconteceu a seguir me gelou totalmente por dentro… Mesmo sem boca, ELE FALOU COMIGO! Era uma voz provavelmente filtrada, pois não conseguia definir se era homem ou mulher…
- Olá príncipe, nos encontramos de novo! Acordou com o barulho? Por favor, não conte ao rei, eu o farei calar para sempre não se preocupe.
Então o sem-rosto ainda segurando o homem pelos cabelos, tirou uma pequena faca de dentro de sua bota e golpeou as costas do homem aterrorizado. Puxou a faca para o lado com precisão cirúrgica como de alguém que sabia exatamente o que fazia ou já tinha prática. Frio e cruelmente o homem sem-rosto enfiou a mão dentro das entranhas expostas e tirou algo de lá. Dava pra ouvir suas risadas, então ele disse:
- Sabe, acho que os nórdicos faziam algo do gênero… Cortavam as costas de suas vitimas e tiravam o pulmão e a coluna pra fora… eu sempre quis fazer isso mas nunca tive oportunidade - disse o homem sem rosto apontando a faca para mim, agora repleta de sangue - qual desses é o pulmão? Preciso ir até a cozinha buscar sal… Isso tem que passar sal nas feridas…
O estranho homem sem-rosto se afastou e não voltou mais. Deixou o homem agonizando até morrer no corredor sujo e fétido. Com o passar do tempo, os ratos vieram e fizeram um banquete. Passei a noite tentando não olhar para fora, mas já havia começado a sentir minha sanidade deixando de se importar com a realidade.
DIA 15
Hoje foi um dia feliz. Conheci Harry, meu companheiro novo de cela. Sempre que me servem comida, guardo sempre um pouco para ele. Cuidar de Harry tem mantido um pouco de mim vivo o bastante para fazer estas anotações. Harry veio até minha cela um tempo depois do homem agonizando no corredor morrer, estava no meio dos outros se alimentando. Ele se lembrou de mim…
Tomar conta de Harry me faz lembrar dos hamsters que minha irmã cuidava. Gostaria de saber como ela está.
DIA 16
Hoje escutei dois dos homens sem-rosto discutindo no final do corredor. Eles argumentavam sobre o homem que enfrentou a víbora, ou algo assim, e reclamavam sobre o corpo que estava no corredor alguns dias atrás. Depois disseram que queriam dar uma olhada em algo que não deu pra ouvir e vieram até minha cela. Passaram alguns minutos com o rosto direcionado a meus aposentos e o silêncio foi quebrado com uma pergunta.
- Não parece muito corajoso - disse um dos homens sem-rosto.
Fiquei vários dias sem praticar a comunicação, não poderia deixar escapar este momento para obter alguma resposta.
- Coragem é algo que nos permite uma fuga temporária do medo. Ninguém é realmente corajoso, todos sentimos medo. - respondi tentando forçar naturalidade.
- Bom… a ignorância permite certos tipos de atos. Mas você viu ontem um show bem aqui em frente. Quando se trata da…
Bruscamente o homem sem-rosto interrompeu seu diálogo e colocou um dos dedos onde seria a orelha. Engraçado fazerem tantos gestos como se tivessem realmente os membros de uma pessoa normal. Então começou a ir embora mesmo com minhas insistências fúteis de se continuar o diálogo.
DIA 20
Briguei com Harry hoje. Ele me pediu para dormir no meu lugar e eu disse que não. Não queria deixa-lo triste já que faz um bom tempo que não tomo banho. Ele falou que não se importa, mas eu me importo! Não estamos nos dando bem…
DIA 23
Chegaram
amordaçaram
levara
onde verdades
respostas
citaram scp -
PT.
Disseram que vão me buscar a tarde, pois alguém importante estava fora a serviço e irá chegar após o almoço. Pelo menos a morte vai me libertar. Harry perguntou se podia degustar meu interior quando morrer. Sempre faminto. Sentirei falta dele.
DIA 20 DIA ??????
Hoje é o dia. Depois daquele remédio estranho que me deram ontem, eu me sinto mais lúcido e firme. Tomei todo cuidado para deixar as anotações aqui dentro da parede, juntamente com o

.
Me lembrei claramente da pessoa que me atacou lá na Fundação, e usei minhas habilidades no desenho para fazer um esboço rápido com o pouco de tinta que me faltava. Desejo que isto ajude a quem achar esse registro, a identificar meu agressor.

FIM DO LOG.
EXPLICAÇÕES PERDIDAS
Acordei hoje ao som maravilhoso de Wolfgang Amadeus Mozart. Tenho certeza de que esqueci de desligar o aparelho de som ontem…
Escovei os dentes com uma escova nova, arrumei a gravata e me preparei para mais um dia de luxo. Mandei novamente a solicitação de sempre por baixo da porta, segundo as orientações pelas quais me foram dadas, mas por ora nem sinal de serem respondidas positivamente. Apenas dizem que o tal Harry não pode ser localizado. Como é possível não localizarem meu companheiro de cela? Espero que Harry não pense que o abandonei, adoraria sua companhia aqui.
Faz um bom tempo desde que saí daquele lugar imundo no qual estive preso. Disseram-me que eu teria um encontro importante e que eu deveria ser preparado com boas condições físicas e psicológicas. Retiraram-me da pocilga em que estava e fizeram testes de sangue, recebo visitas de um sujeito que se intitula psiquiatra, três vezes por semana calculo eu. Aqui a luz do sol aparece nas janelas, o que torna fácil deduzir o tempo, embora o exterior revele grandes muros e não consiga ter a mínima dica de onde estou.
Fui transportado depois de ser drogado com algo que me deixou sem consciência. Acordei em uma cama limpa. Eu deveria ser mais organizado com essas minhas anotações, mas o problema é que tudo é muito confuso ainda e quando tiver tempo, farei um ou outro sumário de tudo organizadamente. O importante agora… é registrar.
Escutei algumas pancadas na porta por onde julgo ser a entrada do meu pequeno e aconchegante lugar. Meu grande conforto aqui me faz esquecer as vezes que ainda estou prisioneiro de desconhecidos.
Um homem gordo de terno branco, portando óculos no bolso da roupa e careca apareceu assim que a porta abriu. Pareceu-me que ele realizou um gesto pedindo permissão para entrar, mas logo foi impedido por uma mão com luvas e foi empurrado para trás.
No mesmo momento, pude ver dois dos homens-sem-rostos a postos ao lado de onde a minha estranha visita veio, e então após um barulho de arma sendo engatilhada, entrou em meus aposentos alguém que já conheço muito bem…. a guerrilheira que encontrei na Fundação.
Ela entrou no local me ignorando completamente. Fez algumas poses como se estivesse em um filme de ação, procurando alvos. Ergueu o nariz como se estivesse procurando algum cheiro, ficou parada por alguns segundos e virou lentamente para minha direção. Então girou o olhar rapidamente para a porta e fez um sinal estranho com os dedos. O homem gordo entrou, a porta se fechou e a guerrilheira estranha fez alguns movimentos precisos girando o revólver e o colocou dentro de um compartimento no cinto. Então ajoelhou com apenas um dos joelhos na minha direção com certo sorriso sarcástico nos lábios e disse.
- Bom dia príncipe. Sei que os aposentos não refletem sua grandiosa presença pela qual sou acariciado neste exato momento. Apenas seres celestiais desfrutaram do momento que estou a aproveitar;
O estranho homem gordo acenou para a guerrilheira, pedindo para ela se calar. Então sentou em um sofá em silêncio, seguido pela guerrilheira e abriu uma caixa me oferecendo um charuto.
- Eu não fumo – disse a ele enquanto encarava a mulher.
- Nunca é tarde para começar – ele disse – geralmente só é tarde para se parar. Mas o que venho lhe oferecer é muito mais profundo do que charutos, embora estime muito esses e sejam bem caros.
O estranho gordo se perdeu em pensamentos enquanto alisava seu charuto, enquanto a guerrilheira cruzou as pernas, acentuando o sorriso de deboche em seu rosto. Passou uma de suas mãos bem devagar em uma de suas pernas enquanto percorria com a língua os arredores dos lábios.
- Você gosta? – disse ela tocando os seios por cima do uniforme
- Víbora –interrompe o gordo – eu não quero que você faça nada que provoque recusa. Lembre-se que isso faz parte do seu objetivo.
O sorriso de deboche da Víbora dá lugar a um olhar sério. Não conseguia definir se o sarcasmo ainda estava presente, ou se realmente estava séria.
- Meu caro doutor – disse o gordo – gostaria de lhe mostrar algo que é de interesse de nossa organização. Se me permite…
Então o gordo retira de seu paletó um envelope e me entrega com muito cuidado. O envelope estava lacrado e havia um “C” estampado na ponta do meio do lacre.
- Oh, vejo que está intrigado com a letra no envelope. –disse o gordo – Onde estão meus modos? Perdoe-me, ando muito ocupado, então tenho cortado todo tipo de assunto e indo direto ao ponto. Sou conhecido como senhor Calamidade e a jovem que acredito já conhecer, a Víbora. Codinomes são necessários em uma organização, certo? Afinal, como vão referenciar o autor de nossos feitos sem um. Nomes reais só existem para pessoas reais. Por favor, abra o envelope sem demora.
O envelope continha uma foto de SCP-043-PT, uma que ainda não tinha visto em nenhum relatório. Junto a ele, uma notícia de algum jornal que não identifiquei devido ao desgaste com uma matéria destacada por uma caneta vermelha “Jovem imita feitos do jogo [DADOS EXPURGADOS] e mata pais e família na última quinta-feira”. A foto ilustrando a manchete era apenas de uma casa velha com muitos policiais patrulhando o local. Junto ao jornal, anexado com um clip, havia uma foto de duas crianças, uma menina chorando no chão e um menino, ambos pareciam ter uns sete anos. O menino estava sorrindo na foto, dando uma medonha contracena com a menina triste. Uma de suas mãos parecia acariciar a menina e a outra segurava algo pontudo.
A foto pareceu incomodar a Víbora. Seu olhar parecia me dizer que aquilo era como uma bomba relógio e que explodiria se não fosse devolvido ao interior do envelope rapidamente. Sugestão acatada.
- Agora que você viu este material – disse Calamidade – Podemos avançar o tópico. Por favor, chame a Infernalis. Diga que o doutor já está pronto para cumprimentá-la.
O leque de surpresas não acaba. Entrou na sala aquele longo vestido roxo que iniciou todos meus pesadelos. Irônico e estranho dizer isso, já que o início dos pesadelos de todo membro da Fundação é o dia em que se põem o pé dentro…
Elegantemente a mulher me acenou delicadamente como uma rosa desabrochando para o sol na manhã, dando aquela sensação de que estava falando com uma deusa para o qual deveria servir para o resto da vida. Sem dizer nada, ela se sentou ao lado do Calamidade, ficando assim o trio com o gordinho no meio, que agora parecia ter terminado seu “ritual de adoração ao charuto”.
- Como pode ver, a Víbora o trouxe pra cá após seu pequeno… Confronto com ela na Fundação. E a princípio o jogamos na prisão da nossa modesta base com a intenção de te eliminar. Não se sinta ofendido – escondeu um breve sorriso na sua cara elástica – São os protocolos, nada duraria se eles não fossem seguidos a risca. Então… descobrimos que você trabalhou em alguns objetos interessantes na Fundação…
Calamidade pega alguns papéis de dentro do seu terno e começa a folear, dando breves olhares como se estivesse me analisando ou algo do tipo.
- SCP-███-PT. Estava envolvido nele?
- Não. – Respondi brevemente. Acreditei que o quanto mais breve eu fosse, menos chance de dar brechas para que duvidassem de mim. Era só responder não para tudo e dizer que havia entrado a pouco tempo… na hora eu penso em algo…
- SCP-███-PT?
- Não.
- E o 043?
- Ouvi boatos de que era perigoso e pedi transferência alegando falta de experiência.
O tal de Calamidade respirou fundo. Então ele virou para a mulher do vestido roxo e subitamente a Víbora levantou.
- Não precisa fazer nada irmã, meu método é bem mais rápido, deveria ser aplicado desde o princípio – disse a Víbora, levantando do seu lugar enquanto coloca a mão na sua bota.
- Víbora! – gritou Calamidade – Não buscamos a dor e sim a compreensão aqui. Seus serviços serão solicitados quando necessários.
- Eu já aguente o suficiente seu porco gordo – diz a Víbora retirando uma espécie de adaga de suas botas – Que se dane o jogo, eu acharei outro caminho…
Espantei-me com a cara tranquila que o Calamidade demonstrou, como se ele previa o que estava por vir. No mesmo segundo, Infernalis, a mulher de vestido roxo, se postou a sua frente entre os dois com as mãos abertas.
- Chega Víbora, me deixe cuidar disso. – disse Infernalis – Sempre precisamos cooperar lembra? Quando você faz tudo, não conseguimos o que queremos.
Víbora consentiu com a cabeça e sentou-se novamente. Embora Infernalis estivesse longe de mim, senti um perfume muito suave vindo dela. O aroma me lembrava da infância, de crianças correndo felizes pelo campo… me sentia mais líbido e isso era um perigo pra minha situação que me exigia certo controle. Tenho certeza de que algo anômalo vinha daquele cheiro…
- Doutor… – disse ela com a graciosidade de uma pétala de rosa – eu sei que você está mentindo para ocultar informações. E isso é muito feio, pois este senhor aqui te fez uma pergunta utilizando o melhor de sua educação. Poderia usar sinceridade em suas respostas?
“Sequestro não faz parte de uma boa educação.” Foi o que eu disse, mas senti como se não tivesse dito. Uma pontada de dor forte na minha cabeça surgiu e tudo girou bem rápido, como se o tempo tivesse voltado até a pergunta dela. Novamente, protestei contra a situação em que me encontrava e uma dor ainda mais forte tomou minha cabeça de assalto. Tudo girou e rebobinou e mais uma vez estava ouvindo a pergunta dela. Era como se estivesse dentro daqueles jogos, onde quando você dá a resposta errada, você precisa recarregar até o ponto que salvou e responder certo.
Fiz inúmeras tentativas sem sucesso até ceder a dor de cabeça e tentar responder que estava mentindo e que responderia com sinceridade.
- Nunca falha –disse Calamidade – essa é minha menina. Pela sua dor de cabeça doutor, eu diria que você deu uma boa resistida… – finalizou o gordo, rindo e acendendo mais um charuto…
Após tomar um copo de água, respondi com a verdade uma série de perguntas feitas por Infernalis. Basicamente queriam saber especificamente com o que trabalhei na Fundação. Após essa bateria de perguntas, iniciou-se um questionário sobre SCP-043-PT em específico, embora tenha percebido certa tristeza no rosto arredondado de Calamidade quando disse que não tinha envolvimento com SCP-███-PT.
- Parece ser realmente o tipo de homem que você procura Víbora. –disse Calamidade – Mas para mim, não serve.
Calamidade se levantou com um semblante de decepcionado e se dirigiu a porta. Ao colocar a mão na maçaneta, virou o rosto em direção a Infernalis e disse:
- Como combinado, tem carta branca para fazerem o que quiserem. Menos mostrar aquela parte da instalação. Se ele não serve para mim, não tem motivos de saber tão a fundo nossa organização. Todo homem tem seus segredos, certo doutor?
Parecia ser uma daquelas perguntas retóricas, então Calamidade me deixou aos cuidados das duas na sala. Infernalis quebrou o silêncio no local, tomando de mim o envelope entregue anteriormente, parecendo uma criança recebendo um doce, sorriu e começou a falar graciosamente:
- Estou tão feliz doutor! Vai nos ajudar né?
- Eu não sei do que está falando – disse desviando o olhar. Se havia algum risco cognitivo agindo aqui, talvez fosse através do contato visual… pelo menos é o procedimento padrão pelo qual treinamos muito…
Infernalis então abriu o envelope e tirou a foto do menino e da menina e disse:
- Gosto tanto desta foto minha com meu irmão… é a última lembrança que tenho antes do incidente que envolveu nossa família.
- Fala do jornal anexado junto a foto? O que aconteceu? – perguntei com curiosidade.
De repente, mal dava pra ver o rosto alegre de Infernalis, que teve a face coberta por uma sombra inexplicável.
- Sim. Eu sou uma das vítimas de SCP-043-PT. Eu sou um personagem de algum tipo de jogo cooperativo. Eu e meu irmão… – após uma breve pausa ela continuou. – Estava com ele na noite em que nossos pais foram mortos…
Infernalis então mostra para mim, uma velha foto antiga e sem cor de seus pais. O homem na foto parecia pertencer a algum exército. Estava com a boina na cabeça. E a mulher na foto seguia o mesmo padrão de roupa, porém a cruz no ombro de suas roupas sugere que fosse alguma profissional da saúde…
- Na noite em que eles morreram, eu acordei e fui para a cozinha. Então eu abri uma gaveta e peguei o ralador de queijo de madeira da mamãe, uma faca e um triturador de alho e comecei a bater na faca com o triturador em cima do ralador.
Não estava entendendo nada, mas ela prosseguiu…
- Então meu irmão surgiu. Perguntou-me se sua adaga estava pronta… Perguntei a ele do que ele estava falando e uma dor forte na minha cabeça surgiu e ele me fez a mesma pergunta de novo… E de novo e de novo… Eu era uma criança… Eu sou uma criança… Ainda sou… Mas eu não sabia o que fazer pra sair daquela situação… Acredito que muito tempo se passou, mas o dia não chegava e a dor na minha cabeça só aumentava… Até que eu disse sim para ele… Talvez ele quisesse brincar… Mas eu queria dormir… Depois ele jogou em mim algumas moedas e eu dei a ele a faca de cozinha em que estava batendo… Ele se levantou e foi até o quarto do papai e da mamãe… Não ouvi muita coisa, fiquei apática em pé… Quando vi o sangue jorrando da porta do quarto eu quis gritar assustada, mas não consegui… Reprimir de modo involuntário esse sentimento me fez sentir uma lágrima escorrer no rosto. Apenas isso…
Pedi a foto mais uma vez para Infernalis e segurando a foto na mão, a luz destes novos detalhes, percebi algumas coisas que passaram despercebidos. A mão da menina na foto estava cheia de sangue, e o rosto do menino também. Infernalis abriu novamente os lábios e eu não ousei interromper.
- Eu estava curiosa para saber o que havia acontecido, mas algo me impedia de ir até o quarto. Então eu continuei a bater com o triturador de alho em outra faca que retirei da gaveta. Em um esforço supremo, eu consegui de alguma forma, marretar meu próprio dedo, vária e várias vezes até esmigalhar a unha do meu dedinho. A dor me libertou de alguma forma, e corri para o quarto. Meu irmão estava la. Parado com a faca da cozinha na mão com sangue e tecidos humanos ainda quentes e frescos por todo quarto… Eu gritei e a polícia foi acionada pelos vizinhos. Quando chegaram ao local, eu estava no chão chorando, pois havia desistido de colocar “as coisas da minha mãe” de volta dentro dela e gritava desesperadamente ao meu irmão questionando por que ele tinha feito isso… A polícia estava parada tentando assimilar aquela cena, mas o momento foi quebrado pelo meu irmão que começou a falar: “O Rei e a Rainha demônio foram derrotados. Os anos irão se passar e novas ameaças vão surgir no mundo.” Como em um conto de fadas, nos tornamos adultos em questão de minutos. Minha roupa de criança se rasgou inteira e fiquei totalmente nua. Então os pol…
– Acho que o príncipe já esta a par do mais importante – interrompeu a Víbora – Você não precisa continuar isso. Irmã…
- Espere… você é o irmão dela? – perguntei espantado
- Isso mesmo. Eu sou homem seu vacilão. – disse a Víbora arremessando sua faca na parede – pelo menos era… até por algum motivo “o jogo” me transmutar em uma mulher adulta.
- Deduzimos que talvez… – disse Infernalis – façamos parte de alguma espécie de jogo cooperativo de duas protagonistas femininas. Não sabemos quem está a jogá-lo, não sabemos nem ao menos se está sendo jogado. Nossas ações parecem serem feitas por livre arbítrio, mas Calamitas jamais descartou a possibilidade de estarmos sendo manipulados para que as pessoas pensem assim. Comunicação, ações e diversas outras habilidades são compartilhadas entre eu e meu irmão. Quando certos requisitos são atendidos e aproximamos as tatuagens de cobra que possuímos, efeitos mais intensos ainda podem ser ativados…
- Queremos sair desta situação cara… – disse Víbora – E precisamos de alguém que tenha conhecimentos sobre o funcionamento de SCP-043-PT. Somos como instâncias fora de controle e super-humanas. Talvez cobaias de algo maior. Talvez a Fundação esteja envolvida…
- Impossível – interrompi levantando do sofá que estava. – Vocês põem em risco qualquer princípio de ordem e regulamento que regem a existência da Fundação. São uma espécie de quebra de contenção, sem falar na quebra de sigilo. A Fundação jamais faria um teste arriscado assim. Além do mais, a única estância de SPC-043-PT conhecida está contida e desligada. Testes foram realizados, e nenhum jogo estava ativo no momento.
- E o que acontece com as pessoas controladas por SCP-043-PT? – Perguntou Infernalis.
Voltei a sentar. Uni minhas mãos e disse:
- Nada bom… não me lembro da Fundação ter conseguido finalizar algum jogo de SCP-043-PT com a vítima sobrevivendo ou voltando ao normal. Na teoria, o que acontece com o personagem de um jogo no final? O jogo fica preso no “Fim de jogo” após os créditos, ou simplesmente ele recomeça tudo de novo. No melhor cenário, eu diria que vocês entrariam em coma permanente durante a mensagem de fim de jogo, ou poderiam distorcer a realidade voltando o jogo ao começo, regredindo todo o tempo do universo… isso é mal… deveriam reclassif….
- Não me interessa todos estes protocolos de vocês –disse Víbora erguendo a voz – Eu só quero voltar ao normal.
- Então regressem comigo. Vamos sair daqui… Classificarei ambos como estâncias do 043 e pesquisaremos até encontr….
- Nem a pau – exclamou Víbora – Conhecemos o suficiente a Fundação para saber seus interesses. Vão apenas nos trancafiar para garantir a contenção e o sigilo do paranormal. Provavelmente por causa de nossas propriedades, vão me separar de minha irmã. Faria o inferno na terra se isso acontecesse, sei bem onde cutucar se for preciso pra irritar vocês…
- Então é estaca zero para nós todos. – Continuei – Ainda não entendo com precisão o que querem de mim.
- Queremos sua ajuda –disse Infernalis – Somente isso. Quando nossos pais foram assassinados… Éramos crianças. Mas pagamos pelo crime como adultos. Quem acreditaria que apenas nossos corpos eram de adultos? Tem ideia de como foi crescer dentro de uma prisão?
- Deve ter sido difícil – eu disse pensativo.
- Menos para mim – Completou Víbora.
Ele se levantou como alguém esperando sua vez de falar, retirou sua faca de sua bota novamente e apontou para minha garganta.
- O que irei te falar, você levará ao túmulo entendeu principezinho? Se algo vazar, sua morte não vai compensar um terço do estrago que você terá que pagar. Eu sabia que não deveria ouvir e me comprometer mais no assunto, mas a curiosidade ainda vai me matar.
- Eu sou mais adequada para contar a ele, irmão! – interrompeu Infernalis – lembre-se do meu papel aqui.
- Tsc, prossiga – Disse Víbora se afastando com os olhos ainda em mim.
- O que meu irmão quer dizer… É que… Ele entrou em um estado inerte após assassinar nossos pais. Lembra-se dos dois policiais que citei anteriormente? Então… Corri para eles, gritando com medo e o abracei. Um deles olhou para o lado e deteve meu irmão e o algemou. Era adulta e estava nua… Então um deles começou… a abusar de mim. O outro parecia não gostar da situação, mas não fez nada para intervir. Meu irmão saiu do seu transe e viu tudo. Ele gritava, mas estava imobilizado no chão. Então foi a primeira vez que a tatuagem de cobra começou a arder. Trocamos de lugar um com o outro, e logo ele estava nos braços do meu agressor. Ele o chutou na virilha e esfaqueou o pescoço dele com tanta raiva que o cabo da lâmina da faca quebrou. O policial caiu no chão agonizando e o outro que agora me segurava, levantou apontando a arma para o meu irmão. Meu irmão investiu, mas o policial atirou e acertou sua cabeça em cheio. Eu gritei e mesmo algemada segurei seu pé. Ele chutou meu rosto me chamando de porca e estava muito nervoso por seu amigo estar esfaqueado… Ele me levantou e jogou na parede e cai ao lado do corpo do meu irmão. Senti o corpo dele ficando frio… Acabei encostando meu ombro no dele e a tatuagem começou a formigar de novo… Até hoje não entendo bem o que aconteceu, mas o ferimento de bala na cabeça do meu irmão foi transferido de alguma forma ao outro policial, que caiu morto no chão. Chorei e gritei até o sol aparecer na janela, meu irmão não acordava não se mexia. Logo outra viatura parou na frente de casa.
A sala ficou em silêncio durante um tempo. Víbora como sempre parecia inquieto e sua irmã manteve o olhar sereno de sempre. Aproveitei a situação para juntar os fatos. Estavam procurando algo na Fundação… eu estava vendo a invasão em um setor remoto e os segui. Espere… e se não estivessem tentando furtar algo e sim colocando algo como imaginei? Justificaria usarem o setor de transporte de objetos, mas poderiam estar interceptando alguma carga também… preciso de mais peças do quebra-cabeças…
- Sobre Calamitas… –quebrei o silêncio – Como ele se liga nesta história toda?
- O senhor Calamitas pegou nossa guarda através de algum atravessador, e fez alguma coisa pra nos dar a liberdade. – disse Infernalis – Segundo ele, a notícia de que assassinamos nossos pais e dois policiais, despertou o interesse dele, pois estava procurando pessoas para sua organização. Ele disse que tínhamos o que era preciso.
Infernalis começou a alisar a tatuagem de cobra e continuou.
- Nossos… “dons” não se ativaram nenhum momento durante nossa estadia na cadeia. Passamos por muitas situações onde nossa salvação poderia vir destes poderes, mas não tínhamos ideia… nem conhecimento do que podíamos fazer… passamos por tanta coisa…
Mais uma vez Víbora interrompe.
- Já chega, queremos sua ajuda. Vai ajudar ou não príncipe?
- Sim. Mas não farei nada que traia a Fundação, vocês vem comigo e lá pensarei em algo – disse com seriedade.
-“… e lá pensarei em algo… – disse Víbora com voz de chacota – Você está em posição de exigir algo?
- Estou. – respondi – Eu sou no momento sua melhor opção. É pegar ou largar.
Infernalis soltou algumas lágrimas e seu irmão logo a reconfortou.
- Isso não vai dar em nada irmã. Eu lhe disse que esses pesquisadorezinhos da Fundação não são de confiança. Não chore – disse Víbora fazendo carinho na irmã – vamos ficar sempre juntos.
Infernalis deixa a sala apesar dos meus protestos. Nenhuma promessa de cooperação chegava até ela. Quando a porta se fechou, Víbora começou a falar sorrindo.
- Espero que tenha fetiches por humilhação príncipe. Você tem uma dívida para se pagar comigo.
Víbora fez um gesto com a mão, mas nem esperei para ver, pulei atrás do primeiro sofá que vi. Teria eu alguma chance?
Suas risadas ecoavam pela sala, me causavam mais dano do que uma bala no peito causaria, me sentia impotente, apenas pensava em como adiar o inevitável. No combate eu não tenho chance alguma, mas na lábia… é uma criança psicopata que passou por todo tipo de trauma, o que eu deveria falar?
Em milésimos de segundo, uma faca é arremessada e cai bem do meu lado, enterrada na superfície de madeira do chão, então um brilho breve surge e Víbora aparece onde a faca estava. Ela pegou algo do bolso e disse:
- Estouro de Vento. Forma do Punho!
Dizendo isso ela anexou um pedaço comum de papel nos punho e me socou. Eu me senti leve como se estivesse sendo puxado por um furacão e arrebentei as costas em uma janela na sala. Apesar de o vidro não ceder ao impacto, por provavelmente ser blindado, não posso dizer o mesmo de minhas costelas… e mais uma vez uma adaga foi arremessada bem do meu lado.
Em um surto de forças, eu segurei a adaga e depois do brilho breve, fui teleportado para o outro lado da sala, junto da adaga. Estava a entender como tudo funcionava. Víbora estava agora na janela onde estava, tudo aquilo era muito anormal, parecia uma espécie de jogo mesmo, onde meu inimigo teria certo padrão. Talvez eu tivesse mais chances além do diálogo…
Levantei e me posicionei esperando a próxima adaga. Víbora coletou outra adaga da bota, mantendo o sorriso como sempre. Então o inesperado. Ela se cortou fundo em seus pulsos. Então em um lampejo, ela desapareceu no ar e a única coisa que senti depois, foi o pescoço acorrentado por uma estranha corrente. Uma joelhada no estômago veio acompanhando e cai sem ar no chão.
Lembrei-me da infância, quando jogava jogos com meus amigos, o chefão do jogo sempre apelava quando tomava certos danos… baixei a guarda… errei ao pensar que lidava com uma criança, ele era experiente e fui sobrepujado em poucos turnos de eventos.
Víbora então me puxou e me levou para fora. Era um corredor que não refletia em nada a sala luxuosa em que estava. Era como se estivesse morando na boca do demônio; mesmo que tivesse uma boa aparência, ao fundo se ocultava a verdadeira cara do lugar. Passei por vários homens-sem-rostos, um deles espirrou um tipo de spray na face e puxou a pele do rosto. Foi algo bem nojento de se ver e atrás se escondia um rosto cheio de cicatrizes. Alguns começaram a nos seguir, papeando e rindo.
Cheguei até um lugar onde vários homens estavam comendo. Todos uniformizados de forma padrão, eles olharam para Víbora que não chegou ao local com a melhor das educações. Ela chutou a porta e todos se calaram, como se conhecessem bem aquele som.
- Este aqui é o herói que encarou a Víbora? – gritou a Víbora com ar triunfante – Não se enganem plebeia. Qualquer um pode me encarar, agora sair com a pontuação positiva, ai já é difícil.
“Ela fará aquilo de novo” Típica coisa que você ouve da plateia e fica preparado para o pior.
- O pessoal aqui príncipe, acha que você tem alguma chance comigo – disse Víbora – Apenas por que tivemos o empasse la da Fundaçãozinha, eles pensam em ti como herói por que ninguém aqui tem culhões para trocar 1 minuto de porrada comigo. Hoje vamos arrumar as coisas. Lembra-se de quando disse que tua morte não pagaria um terço do que me deveria se abrisse a boca? Vou te mostrar o significado disso.
Então ela socou mais uma vez meu estômago, mas dessa vez não senti dor nenhuma. Notei que sua mão estava aberta e um contorno brilhante verde estava saindo de sua mão.
- Estouro de Vida. Doação Milenar!! – disse Víbora
Nos próximos segundos, tive um vislumbre de lembranças que não pertenciam a mim, como se tivesse ganhado uma vida nova. Então recuei, mas esqueci de que ainda estava acorrentado, então fui puxado novamente e a Víbora me esfaqueou bem no coração. Sentia o peito quente, o sangue escorria até meus pés. Víbora me suspendeu em uma posição de empalado, até ficar rente ao chão. Então agarrou meus testículos com a outra mão e puxou para uma direção oposta cada uma de suas mãos, abrindo meu corpo ao meio e se deliciando com meu interior caindo em seu rosto.
- FATALIDADEEEE – ele gritou.
Fechei os olhos. Acabou pra mim.
Voltei a mim, abri os olhos para ver como é o outro lado da vida… era muito engraçado pois era tudo bem semelhante a antes. Fedia bastante. Havia muitos sacos pretos em minha volta e então me levantei e uma voz estranha me disse:
- Você agora tem uma vida extra apenas, tome mais cuidado!
Depois de andar muito floresta adentro, encontrei uma estrada e desmaiei bem ao lado. Pra mim… chega.
SOBREVIVENCIA 1 DE 2
Uma região deserta. Povoada apenas daqueles desprovidos da vida mas contidos na existência. Bom, isto não está 100% preciso, existe vida aqui sim, mas sua presença não é desejada em lugar nenhum.
A tampa de um bueiro abre, alguns ratos escapam, apenas para serem vitimas da luz. Então o bueiro fecha.
- Já tocou os ratos pra fora? - uma voz feminina é ouvida, com seu tom meio abafado pela tampa agora fechada.
Um menino desce as escadas pela qual levavam a saída onde se resídia o que restou dos pequenos roedores que agora formam uma pequena poça pegajosa..
- Estão lá fora. - diz o menino removendo seu longo capuz da cabeça.
- Ótimo. Vai aliviar este cheiro terrível. Jogue a carcaça na água e deixe a natureza fazer o resto. Que cheiro…. meu Deus…. - diz a voz feminina que se revelara agora uma mulher que aparentava estar em seus 42 anos. Caminhava com auxílio de uma pequena bengala improvisada e demonstrando sinais de fraqueza.
Durante 42 minutos, percorreram uma boa parte dos esgotos em uma rota circular, terminando exatamente onde começaram. Então a mulher olhou para a criança, respirou um pouco mais fundo como se tivesse perdido a prática de realizar esta ação e disse:
- Antonny, acho que já está bom. Este tanto de verdinhas vai salvar a janta hoje.
- Eu gostaria de encontrar peixe. Adoro enroladinho dona Flávia. - disse Antonny
Um sorriso quase saiu de Flávia, mas seus músculos faciais aparentemente já não estão em seus melhores dias. A tentativa frustrada de sorrir trouxe mais tristeza a seu rosto do que a alegria que talvez o sorriso proporcionaria. Os dois então seguem até uma espécie de cortina feita de lodo e algas, que ocultam um longo corredor.
Antonny retira do bolso de sua calça, um pequeno mapa que mostra uma série de instruções. Ele as segue com extrema cautela, seguido de Flavia logo atrás. Durante o percurso, cadáveres, ossos e pilhas de ambos estavam contidos nas paredes e cantos obscuros. Alguns estavam em posições que não é preciso deduções de detetive para imaginar o que ocorrera. Esqueletos sentados com as mãos direcionadas para a boca com armas de fogo, com restos ressecados de miolos espalhados na parede. Corpos pendurados em estacas ou em posições que faz a alusão de que seus últimos momentos de vida foram cheios de remorso e desespero.
Antonny cessa seu movimento.
- Me perdi aqui Flavia.
- Eu não acredito Antonny. Você sabe para que serve este caminho cheio de armadilhas montadas certo? É para proteger a Comunidade. Tantas formas de se morrer nesta época, que não quero me juntar a vergonha. Por favor olhe de novo, nos encontre ai.
Antonny acena com a cabeça, imaginando por que uma criança deveria estar conduzindo um adulto. Sua agonia o vence e ele questiona sobre.
- Antonny - disse Flavia - Você esqueceu de que estou sem meus óculos? Mais dois anos juntando economias eu provavelmente conseguirei comprar aquele branco na loja do seu Claudio. Não reclame e continue a nos guiar. Acredito em você… me desculpe…
Mais doze minutos seguindo o corredor fétido e eles chegam a uma passagem com uma grande porta metálica.
A porta abre sem dificuldades, e Antonny coloca novamente seu capuz. caminham alguns segundos por um novo corredor muito frio, com gelo e cristais sendo formados nas paredes e no teto. Um senhor de idade, com 3 ou 4 dentes de saúde duvidosa, acena com a cabeça pra ambos. Vestido como um zelador ele comenta:
- Bem vindos de volta. Prossigam. Vá meu bem, continue. E Antonny… olha que achei pra ti hoje de manha…
O senhor retira do bolso de seu uniforme, a mão de algum tipo de brinquedo de plástico e o entrega a Antonny.
- Guarde. Um dia podemos achar a cabeça deste boneco…. podemos achar seus pés…. aos poucos ele pode voltar a ser o que era se você preservá-lo e guarda-lo. Assim como a sociedade humana. Vá filho, leve o brinquedo.
Flavia parece agradecer o senhor com a cabeça sem dizer nada e Antonny segue pela passagem com ela. O homem fica para trás, retira um rodo e passa a secar o chão, limpando o gelo que escorreu.
Na próxima sala, alagada com fios desencapados mergulhados ao fundo, Flavia olha e percebe que estão desativados e que é seguro passar. Após mais um pequeno caminho, chegam a um grande espaço circular cheio de buracos com pessoas saindo e entrando das entradas que se estendem em uma longa rede de escadas circular, com um grande buraco no centro, completamente inundado.
O complexo circular supostamente seria um dos poucos, senão o ultimo lugar onde um grande grupo de pessoas estava refugiado. Não havia um nome. nem esforços para se importar em pensar em um. Apenas chamavam de "A Comunidade".
A Comunidade era semelhante a um pequeno vilarejo, com direito a um restaurante, oficina, hospital/laboratório e vários cômodos espalhados pelo complexo, já estavam lá naturalmente, distribuídos em galerias, mas conforme a Comunidade foi abrigando sobreviventes, utilizaram uma broca para construir mais compartimentos.
O restaurante, era mais um local onde se reuniam para comer restos ou alimentos de qualidade duvidosa. Mas abrigava uma gama considerável de receitas para usos da instância da Aurora, que aqui era usada como condimento. Se usada em proporções corretas, estas pequenas porções da Aurora alteravam certas propriedades dos alimentos, muitas vezes os tornando comestíveis. Ou próximo disso.
Instâncias inativas da Aurora se tornaram tão valiosas que se tornaram a nova moeda dentro da Comunidade, e se arriscar em busca de algumas, virou um trabalho perigoso e admirável.
A oficina era o local onde morava Marcio, um habilidoso mecânico. Realizava todo tipo de trabalho, até mesmo aqueles que não pertenciam a sua gama de habilidades, reparando falhas nas estruturas, planejando abertura de novas, realizando manutenção de ferramentas e armas, elaboração de defesas, entre outros. Sempre reclamava alegando não ser engenheiro civil.
O Hospital era o local mais curioso. Nele trabalhava Leonardo Steve Burton, ex membro e pesquisador da Fundação, retinha um vasto conhecimento sobre anomalias. Realizou diversas pesquisas sobre como utilizar os recursos disponíveis para estender o máximo possível a existência da Comunidade, mas devido aos recentes acontecimentos, a tristeza transparecia facilmente em seu rosto.
A Comunidade sofria de uma grave deficiência de vitamina D no organismo. Sua principal fonte são os raios ultravioletas. Ele explicava a situação para as pessoas, sendo o mais transparente possível, mas recebia muita pressão por parte da grande maioria, que exigia que solucionasse este impasse. Se fosse fácil filtrar os raios ultravioletas da luz anômala, a Aurora já teria sido contida a muito tempo. Varias propostas estavam escritas pelas paredes de seu laboratório, apenas teorias iniciais sem comprovação de efetividade, mas a falta de tempo e recurso excluiu muitas delas.
Pelo seu tempo na Fundação, Dr. Leo sofria todas as noites com o pensamento de que algo anômalo pudesse persegui-lo e invadir o abrigo. Pensou em suicídio várias vezes mas o medo das consequências de abandonar a Comunidade o faziam desistir. Ele tentava convencer e ensinar as pessoas de que ele não era necessário. Mas nunca conseguiu seu aval para a morte.
Para aliviar a condição psicológica das pessoas, causada pelas mortes e doenças, Leo dividia durante algumas noites, histórias sobre a Fundação. Era espantoso como histórias macabras aliviavam a ansiedade da Comunidade. Talvez, ele pensava que as pessoas o ouviam com atenção na esperança de obter alguma pista sobre o que causou a condição atual do mundo, ou elaborar algum super plano de combater a luz.
Claro que isso era uma faca de dois gumes, nem todos ouviam felizes. Havia grupos que não receberam bem a ideia de coisas horríveis ocultadas do conhecimento público. Uma pequena parcela tinha desejos obscuros de fazer dinheiro e tomar vantagens de anomalias, e alguns não gostavam do fato de seus filhos brincarem de "Able vs 096".
Antonny frequentava laboratório do Dr Leo. Gostava de aprender os procedimentos básicos, e ouvir as historias sobre a curiosa foto de rosto rasgado que Leonardo mantinha em sua mesa. Dizia ele que era de seu grande amigo, Dr. Egret.
E assim seguia a Comunidade. Fadados a extinção em breve. Castigados por doenças de pele, diabetes e outros enfermos, em uma rotação pela qual Dr. Leo e o pouco equipamento que salvara de seu ex-laboratório, era a única esperança de se estender um pouco mais a existência ínfima que se apagava rapidamente.
Sobrevivência 2 de 2
De todos os sistemas que regiam os poucos suspiros que a Comunidade fazia uso para sua sobrevivência, água era o mais importante. Este era um privilégio que a Comunidade desfrutara tranquila.
Com ajuda de Marcio, Dr Leo consolidou um caminho pelo subterrâneo até uma estação de tratamento de água, que por algum milagre, até o momento jamais sofreou algum tipo de ataque de criaturas indesejadas.
Pelo menos 2 vezes por mês, Dr Leo era escoltado até a estação para realizar certas manutenções e verificação da qualidade da água. Mas já fazia certo tempo que não realizava esta visita.
O motivo pelo qual Dr Leo se ausentou de seu simples compromisso, é provindo de um compromisso de maior importância: Estava a desenvolver um protetor solar contra os raios anômalos.
Em teoria, isso facilitaria a locomoção das pessoas responsáveis em adquirir suprimentos, proteção, e talvez uma luz no caminho a se encontrar alguma resposta ao problema que tanto importunava a humanidade a anos.
Dr Leo estava a caminho da Amazônia, para coletar recursos necessários para a produção de seu primeiro protótipo. Excursões para fora de lugares programados pela Comunidade eram proibidas. Adição de novas rotas eram feitas previamente por uma equipe perita em missões de reconhecimento, mas Dr Leo teve seus pedidos recusados por mais que solicitasse.
A pequena tropa de reconhecimento era liderada por um velho lobo do exército, que embora tivesse algumas praticas militares, seus comandados não compartilhavam de mesmas características, já que era uma pequena tropa composta de pessoas com profissões totalmente alheias as necessidades da época, como um vendedor de bilhetes da loteria, um apresentador de programas de TV, um ator e um "Negociante de bijuterias".
A escolha destes profissionais não fora aleatória; O vendedor de bilhetes conhecia grande parte do terreno pois percorria a cidade toda vendendo seus bilhetes, conhecia atalhos em meio aos escombros e pontos de interesse. O apresentador mantinha a paz na equipe com suas habilidades sociais e era bastante requisitado para interagir com sobreviventes que encontrassem. O ator auxiliava o apresentador devido a sua fama e ser reconhecido muitas vezes, o que facilitava as interações sociais.
Já o vendedor de bijuterias era um ótimo negociante, utilizando de sua perícia para negociar recursos com outros acampamentos e abrigos espalhados em territórios adjacentes. Mas infelizmente no atual momento, a Comunidade é a única gama de pessoas concentradas em um abrigo que ainda se encontrava ativa. Restos melequentos e verdes nas paredes dos locais de abrigo, eram dicas de que jamais encontrariam aquelas pessoas novamente.
Em um dia programado para Dr Leo se dirigir até a estação de água, ele alegou que estava doente e precisava de repouso. Então, utilizou em sigilo, uma saída de emergência de seu laboratório, juntamente com o ator do grupo de exploração, e caminharam durante dias pelo mundo apocalíptico.
Era difícil caminhar. O sol impiedoso ameaçando viajantes muito mais do que apenas calor, evitando campos abertos e lugares isolados de estruturas para abrigo. O caminhar era pesado, as roupas que os protegiam dos raios anômalos produzia muito calor, e o terror da infecção estava sempre na porta, muitos foram os que foram convertidos por causa de pequenas aberturas em suas vestes, percebidas apenas quando já era tarde.
Alguns quilômetros mata adentro a procura de alguma caverna com sua flora intacta, Dr Leo compreendeu os motivos pelos quais as pessoas da Comunidade o proibira de ir até o local. Cerca de 80% da flora e fauna amazônica estava convertida em uma grande massa melequenta e verde, tão grande que a curvatura de sua base não se permitia ver o cume. O ator se desesperou e quase tirou seu capuz protetor em um surto de loucura, mas foi impedido por Dr Leo, que o restabeleceu com tapas na cara.
Mas para Dr. Leo, o estado de seu companheiro de viagem era compreensível. A grande massa esverdeada não era uma superfície limpa. Formas animais se contorciam por dentro como se estivessem a procura de ar, o grunhido e seus rosnados agora entravam em sintonia de uma forma que causaria inveja a um produtor de filmes de horror. Qualquer um a ouvir aquilo poderia jurar que era um lamento. Dr Leo lembrara de sua paixão quando era criança por animais, o que o levou a cursar veterinária e adicionar o ofício em seu currículo. A paixão por animais o permitiu se aproximar da enorme criatura, mesmo que em meio aos protestos de seu companheiro de viagem a beira da loucura. Leo estendeu a mão, como se fosse apalmar a criatura, mas ao invés disto, retirou um instrumento semelhante a uma pinça, e pegou uma amostra da gigante anomalia, e colocou em um tubo de ensaio.
A criatura permaneceu imóvel, provavelmente seu tamanho a impedia de se locomover com facilidade. Mas após se afastarem em segurança, Leo realizou um pequeno teste de campo e percebeu que a criatura estava em um período de hibernação. Durante três dias, coletou amostras e descobriu que a composição havia levemente se endurecido. No caminho de volta, discutiu com sua mente sobre teorias. Talvez estivesse se tornando o casulo para algo após absorver a quantidade necessária de energia…
O silencio estava a matar seu companheiro de viagem. O pânico causado pela bizarra visão ainda estava queimado na mente do pobre ator que murmurava palavras sem sentido e seu estado passou despercebido pelo esperto doutor, agora perdido em pensamentos.
Durante o segundo dia de viagem de retorno, Leo acordou bem cedo e notou que seu companheiro não estava em sua cama. Após o silêncio ser quebrado por gritos de socorro, rapidamente vestiu-se com sua roupa de proteção e se dirigiu a fonte das súplicas.
Ao chegar a um local aberto, ele viu uma mulher com certas partes de seu corpo convertidas e derretendo em uma poça verde-amarelada ao chão, tonalidade esta atingida pela mistura do composto anômalo com sangue, que jorrava dos vasos sanguíneos agora rompidos pela conversão parcial da estrutura humana original. Ela percebeu a presença de Leo nas sombras da estrutura escura, e começou a gritar pedindo para deixa-la em paz. Após observar bem, ele percebeu que ela jazia uma criança em seus braços, provavelmente um bebê.
Talvez aquele fosse um sinal de que existia humanos vivendo em condições muito melhores, pensou Leo. Ninguém mais se importava com a reprodução, quem traria uma criança a este mundo?
Então ele ergueu suas mãos para cima fazendo gestos de paz e tentou se aproximar, mas atrás da mulher surgiu uma sombra já conhecida. O ator com quem Leo viajava. Totalmente enlouquecido e com sua cabeça parcialmente convertida, derramando pequenas porções do composto crânio adentro. Ele gritava coisas que não se era possivel entender pois assim que suas palavras saiam, a mulher gritava mais alto apertando o bebê em desespero.
Leo chamou pelo amigo, mas não teve resposta. O mesmo estava a coçar sua cabeça, arrancando pequenos pedaços de tecidos da cabeça no processo e derrubando alguns ao chão. A mulher se calou e então mais uma vez o ator começou a falar, desta vez era possível ouvi-lo, mas sua voz já entoava em uma vibração estranha, embora ainda estava dentro da compreensão humana:
- Aurora nos fala, a conversão não é uma punição. É a evolução! Eu já a sinto dentro de mim. Não dói. Não machuca. Não podem se esconder para sempre… deixe-nos entrar.
Após dizer tais palavras, algo entrou na cavidade do crânio do ator, e Leo se adiantou para tentar agarrar o bebê já que sua detentora já estava condenada, mas o corpo do ator explodiu como uma bomba de puro ar, o despedaçando e arremessando Leo para longe. Uma rajada forte de ar abalou a estrutura de um pilar próximo a mulher, derrubando escombros na pobre recém convertida, esmagando-a. Apenas uma poça vermelha de sangue restou embaixo dos escombros, jorrando como um lamento dos últimos suspiros de vida da pobre mulher.
Não é como se esta perca abalasse muito Leo, muitos morreram a sua frente, muitos ainda morreriam. Mas nunca dá para se acostumar. Guiando-se pelas lágrimas, Leo preferia juntar as experiências tristes pela qual acabou de passar, e usar a força negativa provinda dos sentimentos como um alicerce de estímulo para preservar o que ainda lhe restara. A Comunidade.
Ele procurava lembrar do rosto de Antonny, seu pequeno aprendiz cientista mirim, e das pessoas pela qual valorizara. Ao invés de pensar no que perdeu, ele queria pensar no que ainda tinha. A passos largos, ele caminhou e realizou seu percurso de volta, pois sentia que se não os vissem logo, se perderia nas trevas de seu coração.
Passou pela passagem dos esgotos. Tudo estava bem silencioso. O local onde supostamente estariam pessoas vigiando a passagem estava vazio. O silencio agora cortado pelos batimentos incessantes e exagerados no coração de Dr. Leo, justificados por sua ansiedade e atividade física, pois estava a correr no extenso e gelado corredor, resultou na visão de seu pior temor.
Ajoelhado ao chão. Embora com sua força vital normal, não era possível ver a vida, Leo jazia naquele local.
O futuro e o brilho de seus olhos se apagou. Com a visão de muitos corpos arrebentados e uma comunidade inteira silenciada por pequenas cachoeiras de sangue jorrando das cavidades que um dia foi o lar de muitos.
Embate
Trinta e dois por cento. Esta era a mensagem em amarelo que aparecia piscando no computador do laboratório improvisado, avisando o nível de carga da bateria solar que fornecia energia para todo o sistema de pesquisa que antes empenhava certos esforços para encontrar uma solução.
Aquele silêncio era capaz de invejar qualquer biblioteca. Fazia bem. Estimulava o sentimento de aceitação. Finalmente liberdade.
Dr. Leo estava em uma procissão para o fim. Abriu seus arquivos… começou a dar uma última olhada em todas teorias que formulou com o passar do tempo.
Seu primeiro log, era uma das últimas atualizações que recebeu do banco de dados da Fundação quando ainda estava operante.
Revisão 4847/3RR0 atualizada 985 dias atrás
sun1.jpg apagado.
Estava tão quente lá fora.
Item. Machuca.
0bjeto. Desculpe-se.
Procedimentos Especias de Contenção: SCP-001 não deveria ser contido. Sobreviventes do evento SCP-001 localizados em instalações segurasnunca poderão estar com outros}. Funcionários são encorajados a {{superar, e parar de achar que sabem de tudo.
Você não pode se esconder aí embaixo para sempre, amor.
Funcionários expostos a SCP-001 não são pessoas que você simplesmente pode abandonar. Eu não pedi para você me salvar. Não era escolha sua. Eutanização nãonãonãonãonãonão deve ser tentada.
Armas de choque Por que? mostraram eficiência parcial em imobilizar instâncias. Você não aguentava me ver melhor Armas Incendiárias cócegas. Munições criogênicas são as mais efetivas até o momento.
Funcionários localizados no Sítio-19 tem nenhum arrependimento. Nem eu. Nunca é tarde demais, querida..
Descrição: SCP-001 é o termo dado ao Sol, depois que finalmente ficamos livres. Os efeitos são instantâneos, resultando na ausência de sofrimento, até você me separar Essas mudanças parecem assustadoras, eu sei. Independente da reestruturação, em nenhum momento você morrerá.
Eu prometo.
Devido a sua composição, instâncias de SCP-001-A que fazem contato com semelhantes, possivelmente se combinem e fundame finalmente existam. Este não causa nenhuma dor. Desde o evento SCP-001, a maioria das instâncias se acumularam nos tais coletivos, que não parecem possuir volume máximo.nãotenhamedo
A biomassa resultante é deslumbrante. Os organismos componentes irão mudar, girar, girar e girar edentroeforaedentroeforaedentro - membros e corpos juntos, nunca deixando ir al1asUm antes de deteriorar e ser consumido por outra forma de vida.
Instâncias coletivas se locomoverão apenas por tentar ficar próximo de você.
tentando tanto.
Me deixe entrar
Me deixe voltar
Esta linha de pesquisa, visava procurar anagramas, mensagens
subliminares ou algum tipo de código em meio ao conteúdo
estranho que compunha o arquivo.
| Resultado: Falha
| Conclusão:
O arquivo original foi modificado talvez por alguém em período
de conversão em uma instância da luz, com a mente mesclada
a anomalia, sugerindo que busca por respostas no arquivo se
tornem infrutíferas.
Expedição para Site-19 canceladas.
| Arquivo: Modificação estrutural da epiderme (MEE project).
Arquivo apagado.
Arquivo apagado.
Arquivo Apagado.
Tecle Enter para iniciar recuperação de dados.
Recuperação iniciada.
Esta linha de pesquisa visa substituir a camada exterior da pele
humana por uma camada de metal sintética capaz de filtrar os
raios anômalos nocivos para proteger a estrutura interna que sustenta
a vida.
| Limitações conhecidas/previstas:
| Impossibilidade de ingerir alimentos enquanto a luz solar.
| Dor angustiante sendo necessário dosagens de analgésicos regulares.
| Movimentação parcialmente comprometida.
| Conversão apenas de 90% da composição externa é modificável.
| Resultado: Falha
| Conclusão:
Falta de material em larga escala para a realização da cirurgia de
conversão em larga escala.
Falta de material de extrema dificuldade de aquisição, como objetos
compostos dentro da lista conhecida como “Broken God”.
| Arquivo: Protetor Solar Físico.
Esta linha de pesquisa objetiva a criação de um fator de proteção
solar de alto nível, capaz de criar uma camada física, capaz de
proteger a pele exposta dos raios anômalos de SCP-001.
| Limitações conhecidas:
O produto final almejado, não elimina a
necessidade de roupas de proteção, mas apenas aliviar a
composição do mesmo.
Necessitará de várias aplicações durante o dia para manutenção da
camada protetora
Não protege contra ataques de instâncias.
| Resultado: Em desenvolvimento
| Conclusão: N/A
Dr Leo estava dividido entre apagar todas suas pesquisas, admitindo a derrota, ou deixar alguma nota para um suposto sobrevivente… aliás… que sobrevivente?
Sobrevivente… Dr. Leo colocou a mão sobre o rosto e começou a rir. A loucura o dominou e ele desabou ao som de seus gritos.
- Você conseguiu gelatina de limão!!! Você conseguiu!!!! – Ele gritava enquanto esmurrada sua mão na parede mais próxima até a carne viva.
Após dois minutos respirando de forma ofegante prosseguiu:
- A cura… eu sei o que fazer… me tornar um… a melhor cura!!! Ai não vai precisar de cura nenhuma… nenhuma cura AHHHH vencerei no final!!!
Dr, Leo pressiona um botão no painel, sinalizado como perigoso, abrindo uma passagem acima para a superfície após locomover 3 sólidas paredes de aço. Os raios de luz adentram pela pequena brecha, tocando um chão como um pequeno pilar de luz.
Vagarosamente, Dr. Leo caminha esticando sua mão ferida em direção a luz, com risos insanos, cada vez mais alto.
Uma voz interrompe a cena como um tiro no escuro.
- Dr. Leo…. o senhor voltou?…
Um breve vislumbre de sanidade retorna a Leo que dirige seu olhar a procura da fonte da voz.
- Eu…….. abia…….. jamais…… donaria… nós. A voz desta vez ofegante.
Dr. Leo se aproximou. Era Antonny. Estava gravemente ferido e com pequenas porções gelatinosas remexendo como larvas próximas a entrada de seu nariz, boca e orelhas.
Não tardou muito ao semblante de vida retornar ao olhar de Leo, que se apressou em segurar a mão de seu pequeno aprendiz-faz-de-conta e perguntar o que aconteceu por ali. Após aguardar alguns segundos sem resposta, percebeu que havia coisas mais urgentes a se fazer e começou a prestar socorro ao pobre menino.
Dr. Leo colocou Antonny em uma mesa e examinou com uma pequena caneta-lanterna improvisada para então realizar um raio-X contrastado. Percebeu algo estranho no esôfago sugerindo uma Estenose e procurou desesperadamente por um balão pneumático e iniciou um tratamento de Acalasia.
Havia complicações na região do estômago. O diagnóstico mais comum seria entupimento no canal digestivo, provocado pelo consumo exagerado de SCP-001-A. Mas não fazia sentido… Dr Leo, alertou sobre o consumo exagerado da instância, e toda dieta era feita com muito cuidado… talvez… talvez alguma propriedade desconhecida? Dr. Leo começou a teorizar mas interrompeu o pensamento com a urgência que tinha em mãos.
Os sinais vitais de Antonny não melhoravam… Leo deu glorias quando achou seu último soro fisiológico. Possivelmente Antonny deveria ser operado. Dr Leo lembrou de algo cruel neste exato momento. Após uma fratura grave no pé de um membro da sociedade, Dr Leo havia usado as últimas unidades disponíveis de drogas entorpecentes, sob a premissa de haver mais em uma farmácia a 8 km do local.
Não havia tempo… com pesar nos punhos… segurou seu bisturi com a mão ainda em sangue. Apertou com força aumentando sua própria dor, sabendo que não era nada perto do que Antonny iria sentir. Apenas o tempo de derramar uma lágrima se passou até amarrar Antonny e utilizar restos de uma pomada para machucados para fazer o corte inicial.
O pedido de desculpas foi o grito de largada. Com todo resto providenciado, Dr. Leo iniciou a pequena e grande cirurgia. Antonny não gritava. Mas Leo sabia que estava provocando muita dor. O tempo foi passando mas para Leo ele estava parado. Custava a passar.
Leo tremia muito, o que era ruim para a situação. Rezava para que a pequena incisão feita fosse o suficiente para concluir a operação. Cada corte era uma oração para que Antonny não gritasse. Leo não acreditava que iria aguentar se isso ocorresse.
Durante a cirurgia, muito de SCP-001-A foi retirado de dentro de Antonny, mas o principal fator que levou a necessidade daquilo, era o rompimento de várias vias digestivas provocadas pelo congestionamento causado pelos compostos gelatinosos.
Dr Leo não tinha certeza se teria resolvido todos os problemas, mas não queria estender ainda mais a situação. Após tratar os problemas aparentes, encerrou o procedimento e deixou Antonny em observação. Deitou-se ali mesmo ao lado da cama, no chão frio e melequento e desmaiou de cansaço.
O tempo passou. Dr. Leo ainda dormia e Antonny continuava em estado delicado e aparentemente inconsciente. Uma pequena sombra passou perto da entrada do local. Algo os observava…
Após algumas horas, Leo despertou. Ao lampejar dos primeiros momentos de raciocínio, lembrava do que havia feito e voltou sua atenção a Antonny. Seus sinais vitais estavam estabilizados, e demonstrava grande recuperação. Dr Leo derramou suas lagrimas mais uma vez, desta vez em gratidão, pois depois de vivenciar tantas derrotas, ao menos agora uma vitória.
É hora de se recompor… e buscar respostas. Leo organizou um pequeno local improvisado para colocar seu paciente. Levou Antonny pela maca de rodinhas até onde era o “restaurante” da Comunidade, e o colocou dentro do grande frigorífico, que apesar da sujeira causada pelos alimentos que ali eram conservados, era o local mais limpo no momento.
Caminhando entre o mórbido cenário, Leo se dirigiu de volta ao seu laboratório, levando o corpo mais conservado que encontrou para começar suas autópsias e buscar respostas. Sentou e olhou o retrato de seu amigo Egret, e se perdeu em alguns pensamentos. Egret foi durante um bom tempo, inspiração para Leo suportar os horrores de sua estadia na Fundação. Superar tragédias era algo que Leo já tinha bastante experiência, mas ainda assim, ninguém é imune a queda. E cair quando se é forte, é por que a queda foi bem grande…
A autópsia revelou a Leo grandes acúmulos de SCP-001-A entupindo diversas passagens do esôfago no corpo, semelhante ao estado de Antonny, porém em proporções muito maiores. Tão maiores que uma pequena quantidade atacou a mão machucada de Leo, que já havia enfaixado. Só Deus sabe o que teria acontecido a ele se a ferida estivesse exposta e a pequena gosminha tivesse encontrado uma abertura….
Tudo era muito estranho. Era como se tivessem feito um banquete com SCP-001-A, embora tivessem comida “saudável” o suficiente pra precisarem arriscar consumir grandes partes de “geleinha verde”.
Após verificar vários corpos em situação semelhante, resolve ir até o restaurante de novo, verificar a situação de Antonny. Para seu espanto o corpo havia regenerado de certos ferimentos que algumas horas atrás estavam apenas iniciando a cicatrização. Ele observou de longe… caminhou para perto de Antonny então, e retirou lentamente as faixas que havia colocado para proteger o local de sua incisão. E mais uma vez a surpresa bate a porta. Não havia mais uma incisão.
Um estranho barulho é ouvido do lado de fora. Leo, puxa sua arma elétrica e caminha para o lado de fora, fechando a porta do frigorífico. Lentamente olha para o lado externo e nada mudou. Mesma paisagem escarlate. Verifica então ambos os lados e sai para o lado de fora do restaurante, na parte central. Permanece parado por alguns minutos e começa a gritar por sobreviventes e então se dirige a seu laboratório para verificar o perímetro com as câmeras e adquirir armamento pesado.
Um vulto investe contra Dr. Leo bem ao lado, causando um disparo acidental a esmo para cima. Leo se vira e percebe que foi apenas um corpo que caiu de alguma estrutura acima e passou proximo a ele. Isso era mal. Com os nervos a flor da pele, qualquer evento similar poderia desencadear um estado de inibição de raciocínio. A mão que segurava a arma não estava mais firme como antes…
Sob passos pesados, Dr. Leo chegou em seu laboratório. Abriu a porta e verificou as câmeras pelo monitor.
O corredor de acesso possuía 3 delas. Na estrutura central havia mais 5. Mas diversos locais ainda eram pontos cegos, a estrutura atual não permitia mais gastos com energia, já que a bateria solar mal suportava a demanda atual.
Lentamente e com atenção, Dr. Leo observava as câmeras. Ampliou a imagem… nada anormal em 1-A… nada anormal em 2-A… uma breve pausa para enxugar parte do suor no rosto com um velho lenço amarelo… 3-A.. 4…
Bruscamente antes de trocar de visualização de câmera, Dr. Leo pensou ter visto uma forma estranha no monitor… então voltou algumas câmeras atrás no visor e viu duas estranhas sinuetas humanoides caminhando, próximo a entrada.
“É só mais um dia” pensava Leo usando seu mantra de palavras para conquistar a coragem necessária para navegar seu grande mar de temores. Uma pessoa normal talvez não saberia lidar, mas um ex-operante da Fundação tem lá suas cartas na manga.
Para situações de emergência, no topo da estrutura, havia tripés improvisados com projeteis a base de criogenia. Mas essa vantagem a Leo não esta disponível, pois o único caminho para lá, passava por um alçapão que estava emperrado por pequenos acúmulos de SCP-001-A. Então Dr. Leo percorreu todo caminho até o restaurante, e ficou a vigiar o caminho que levava a entrada. Muito tempo se passou e nada aconteceu. Antonny dormia profundamente e Leo ansiava por voltar a vigiar as câmeras, mas temia sair novamente do local e deixar seu amigo indefeso.
Isso era mal. Muito mal. Era Leon que estava a defender o local e ele não tinha o fator surpresa. Estava mais para fator surpreso. Então acendeu a luz interna do restaurante que era uma lamparina a base de óleo, e recuou para dentro. Encostou as portas, pois se as tivesse trancado, provavelmente as possíveis instâncias passariam pelas pequenas aberturas e poderiam encurralar Leo. Destrancar as portas para fugir poderia ser um tempo necessário fatal.
Após um silêncio perturbador, Leo teve uma confirmação visual por uma das janelas. Eram duas instâncias de SCP-001-A, confirmando suas piores premissas. Ambas caminhando e absorvendo os corpos por onde passavam. A luz atraia a atenção então Leo se dirigiu novamente para lamparina para apagá-lo. O problema era que ao se aproximar da porta para chegar a lamparina, era possível observar melhor as grotescas criaturas pelo vidro superior da porta.
O rosto de uma delas estava a escorrer parte de sua composição gosmenta, que estava mesclada a algum rosto desconhecido em carne viva. Em volta do local, a composição pegajosa assumia um tom amarelado, resultado da mistura do verde ao vermelho.
Uma das instâncias observa o vidro embaçado da porta.

A visão deixa Dr. Leo trêmulo e apático. O medo o consumiu de uma maneira tão violenta, que o simples pensamento daquilo invadindo o local, deu forças para que ele continuasse a investida até a lamparina e a apagasse. A criatura permanece alguns segundos antes de prosseguir.
A situação era ruim. Se as instâncias continuassem a absorver os corpos, iria chegar o momento em que lidar com elas seria impossível. As instalações da Comunidade podiam lidar com instâncias de até médio porte, pois um dos sistemas era capaz de ativar uma forte correnteza no grande poço situado na parte inferior do complexo e descarregar os invasores a 32 km de distância em um longo tunel aquático. Mas instâncias de grande porte acabariam entupindo e destruindo toda estrutura, causando desabamento em todo lugar.
Leo tinha o fator surpresa desta vez. Ligou o frigorífico em baixa potência e colocou um cobertor improvisado de suas roupas em Antonny. Era melhor seu amigo passar frio e ficar protegido do que passar de humano a “coisa”.
De qualquer forma… tudo acabaria rapido.
Dr. Leo ativa um comunicador usado no restaurante para avisar o pessoal que havia comida pronta, mas desvia o sinal do som para a porta que levava ao corredor externo. Então se aproxima calmamente da porta de entrada do restaurante, e aguardou olhando pelo vidro, as criaturas serem atraídas pelo som logo abaixo.
Quando as duas aparecem ao lado da saída de som, Dr. Leo consegue uma visão mais clara das costas da segunda criatura. Era um ser bípede, com um grande rabo de escorpião em suas costas. Embora sua aparência gelatinosa, a estranha cauda era capaz de se sustentar como um legitimo rabo de escorpião, o que indica que sua estrutura interna era de algo bem sólido.
Leo observava as duas “coisas” entretidas com o som do alto falante, dizendo “A comida esta pronta! Venham comer delicias verdinhas e frescas” esperando a oportunidade para agir… um barulho vem da sala do frigorífico e retira a concentração de Leo por breves segundos. Agora não dava mais para ver como Antonny estava, até por que não saberia se conseguiria outra chance de se posicionar tão bem em algum local para aguardar uma chance. Ao retornar o olhar as criaturas, notou que apenas uma delas continuava lá.
Não deu tempo nem ao menos de se espantar. Uma longa cauda acerta com tudo o vidro da porta, acertando Leo no rosto e o derrubando ao chão. Soltou sua arma elétrica que rolou alguns metros na direção do frigorífico.
Ainda atordoado, Leo se apressa a se levantar, tocando o rosto procurando por alguma ferida, mas sentia apenas um leve inchaço no local. Mais uma vez a cauda se lança ameaçadoramente pelo vidro da porta, dessa vez, sendo bloqueada pelo braço esquerdo de Leo, que acaba fraturada com o impacto.
Um dos estilhaços acerta o olho esquerdo de Leo, cegando-o. Leo é arremessado alguns metros pro lado até se chocar na parede e cair no chão.
Agonizando de dor, Leo tampa a cavidade de seu olho esquerdo com a mão, gritando, enquanto tudo que conseguia ver com seu olho restante, era investidas da criatura na porta de entrada.
Leo tenta se arrastar até a arma ignorando a dor, mas seu ombro reclama da pancada recebida na parede. Então ele ergue sua mão até onde Antonny está deitado, já mal enxergando. Um tentáculo verde atravessa a porta por baixo e agarra a perna de Leo e começa a puxá-lo. Gritos de arrependimento ecoam de sua boca, mesclados ao sentimento de falha… se pudesse ele não se importaria de trocar sua vida por Antonny. Talvez a entidade se satisfaça com sua carne e vá embora. Então ele vira de barriga para cima enquanto é puxado, aponta seu dedo do meio em um gesto obsceno em direção a porta e diz: “Tomara que engasgue, alface cagada!”
Em um instante, a instância arrebenta a porta, e investe para cima de Leo. Mas mal houve tempo de seu cheiro insuportável e fétido ser notado, uma onda elétrica acerta o peito em cheio da criatura, arremessando-a vários metros para trás, caindo no foço central e sendo levada pela correnteza adentro. Leo se vira suando frio e observa Antonny em pé, totalmente curado e com sua arma elétrica na mão.
- Antonny? Mas é impossível… – diz Leo.
Antonny suava como se tivesse matado o próprio diabo. Soltou a arma e começou a esboçar um rosto de tristeza, como se estivesse prestes a cair em um mar de lagrimas. Neste momento… superando mais uma vez sua dor juntando resquícios de forças, Leo grita.
- Pega a arma Antonny… eram dois…
Subitamente, a instância com cauda aparece de dentro de um duto de ventilação ao lado de Leo, com a ponta da cauda pronta para esmagar seu peito. Ela havia penetrado pelo sistema de ventilação ao lado de fora após golpear a porta varias vezes. Antonny abaixa para pegar a arma mas percebe que será tarde demais.
Outro disparo interrompe a investida. Desta vem não era Antonny, que com o susto, caiu para trás no chão, com lagrimas preparadas para a visão de seu amigo com o peito esmagado. O disparo foi feito em algum lugar de dentro do frigobar. Uma estranha corrente de luz cinza, acerto o ombro de SCP-001-A, se espalhando por todo o seu corpo, reduzindo sua velocidade até torná-lo inerte e desaparecer.
Antonny e Leo ficam em silêncio. Olham com sua respiração ofegante para o frigorifico. Leo tenta indicar com o olho direito para Antonny chutar a arma no chão de volta para ele, embora não saiba se conseguiria empunhar algo em sua situação.
Uma pequena dupla de pontos vermelhos apareceu de dentro do escuro frigorífico, e foi aumentando até estar sob a luz da lamparina.
O pequeno androide levanta um de seus braços e diz:
- Saudações de elevada estima. Transcrito.
(As imagens são:
A do protetor solar:
https://pixabay.com/pt/vectors/proteção-do-sol-loção-spf-sol-148363/
A outra é de minha autoria.)

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