SCP-011-PT-1-B.
Item nº: SCP-011-PT
Classe de Objeto: Euclídeo
Procedimentos Especiais de Contenção: SCP-011-PT deverá ser guarnecido e estudado apenas por funcionários do gênero masculino durante seu período ativo; em seu período inativo, as equipes de pesquisa, e segurança poderão incluir agentes de quaisquer gêneros; exceções à regra deverão ser protocoladas imediatamente.
A área onde SCP-011-PT está localizado foi definida como uma zona de Proteção Ambiental Permanente sob os cuidados de uma empresa particular fachada da Fundação, membros da equipe de contenção de SCP-011-PT devem referir-se aos protocolos do documento Fleurs-de-Lys et amour.
Localização, responsáveis, equipamentos e estruturas associadas a criação e hospedagem de instâncias híbridas SCP-011-PT-1 deverão ser relatadas a(o) atual diretor(a) de pesquisas para investigações recorrentes.
Devido a natureza de SCP-011-PT-4, a Fundação manterá contato com as principais autoridades e organizações de pesquisas astronômicas, documentando oficialmente a anomalia na eventualidade da ocorrência deste fenômeno observável. Caso testes futuros sejam requisitados, protocolos extras de contenção e desinformação serão desenvolvidos conforme necessidade.
Descrição: SCP-011-PT é uma extensão hídrica perene de águas claras de ~60m², ~2.5m e ~1.2m de profundidade em seus pontos máximos e mínimos, localizada na Floresta Amazônica. Espécies de Victoria amazonica (Vitória-régia) podem ser observadas em sua superfície: SCP-011-PT-1-A e SCP-011-PT-1-B designando as folhas, e as flores1, respectivamente.
- SCP-011-PT possui um período ativo, denominado SCP-011-PT-2, que ocorre entre os meses de Março e Julho. Durante o evento SCP-011-PT-2, qualquer indivíduo do gênero feminino que repouse sobre a área congelada por SCP-011-PT-1-A desaparecerá, por meios desconhecidos, intermitentemente até o final do mês de Julho, sendo assim designado como uma instância SCP-011-PT-3.
- Indivíduos SCP-011-PT-3 apresentam diversas mudanças relevantes nos quesitos comportamentais, emocionais e habituais (relações inter e intra-pessoais) em ~92% dos casos observados pós-experiência SCP-011-PT-2; estas mudanças são relevantes quando comparadas a seus perfis de personalidade pré-evento.2
- SCP-011-PT-4 é um corpo celeste que aparecerá nas proximidades imediatas da Lua terrestre como um sub-satélite; uma instância deste objeto se formará espontaneamente após um indivíduo SCP-011-PT-3 passar por um evento SCP-011-PT-2. SCP-011-PT-4 é um fenômeno observável temporário que expirará no final de Julho, coincidindo com o reaparecimento de instâncias SCP-011-PT-3.
SCP-011-PT-1-A são visualmente idênticas a suas contrapartes comuns3, sendo capazes de sustentar 200kg de peso sobre suas superfícies. Durante um evento SCP-011-PT-2, estas instâncias excretam uma camada de gelo negro (de composição química correspondente ao suco extraído de 1-B) sobre a água, num raio de 1.5 metros de suas bordas com ~2 centímetros de espessura. A temperatura da substância varia entre -10 ºC e -20 ºC, sofrendo fusão natural sob temperatura ambiente ou disrupções externas a partir do amanhecer; durante a noite, é autopreservada.
SCP-011-PT-1-B são lírios d'água que exalam uma fragrância adocicada e florescem apenas durante o período ativo de SCP-011-PT, apresentando incandescência azulada não-obstante a sua pigmentação natural branca e/ou rosácea e possuem uma temperatura entre 0 ºC e -10 ºC. Estas instâncias não atraem Cyclocephala castanea (besouros polinizadores).4
Durante SCP-011-PT-2, o reflexo especular da superfície d'água é notavelmente mais nítido e incandescente enquanto reflete corpos celestes durante a noite (das 18 horas até as 6 horas do fuso GMT-4), sendo o intervalo em que as atividade anômalas intensificam-se. Este efeito de espelhamento celeste ocorrerá independentemente das condições climáticas atuais.5
Instâncias SCP-011-PT-3 entrevistadas relatam experiências comparáveis ao estado REM de sono durante o período entre Março e Julho; suas descrições podem ser generalizadas como "uma noite de sono revigorante", com a qualidade das avaliações sendo exponenciais ao tempo empreendido raptado pela anomalia.
Após este ínterim o indivíduo reaparecerá repousando sobre uma das vitórias-régias presentes sobre SCP-011-PT com seu estado físico inalterado, vestindo e carregando os pertencentes com os quais desapareceram.
Embora observável, indícios físicos da existência de instâncias de SCP-011-PT-4, além do ponto geográfico aproximado de sua localidade, não podem ser assertados, visto que o objeto apesar de exibir características similares, como a emissão de luz e uma composição química aproximada a de uma estrela, não possui gravidade própria nem interfere de maneira tangível numa escala correspondente à aparição repentina de uma estrela.
Adendo 011-PT-α: Excerto da documentação de mudanças relevantes pós-evento SCP-011-PT-2.
Indivíduos apresentam um aumento extraordinário de sua percepção em relação à autoimagem psicofísica e autoestima de maneira positiva;
Aspirações positivas para com atividades envolvendo relacionamentos sociais;
Inclinação para o desenvolvimento pessoal;
Aumento de empatia romântico-afetiva em relação à objetos de afeição, não-obstante o gênero do indivíduo;
Aumento de interesse por desenvolver habilidades diversas;
- Em certos indivíduos que apresentam Distimia, o estado patológico é reduzido drasticamente.
Além disto, instâncias SCP-011-PT-3 apresentam memórias de um evento sem precedentes/registros concretos, que funcionam como um engodo para o gatilho destas mudanças relevantes. Este evento é relatado como sendo algo profundamente significativo para o indivíduo, manifestando-se de maneira artística/lúdica, normalmente numa situação cotidiana6. Estas memórias apresentam características em comum:
- A presença de uma entidade metafórica;
- A presença de um elemento admirável, irresistível e/ou inalcançável;
- A presença de uma ambição em estabelecer relações concretas entre entidades metafóricas (em certos casos, SCP-011-PT-2);
- A presença de um elemento de sacrifício (deliberado ou forçado) significativo de forma tangível ou intangível efetuado para efetivar a união entre as entidades relevantes;
- A presença de um viés mediador deste gatilho;
- A presença de uma/várias alegoria(s);
- A presença de símbolos (como fauna e flora) relacionados à noite, corpos celestes e corpos aquáticos.
Entrevistadora: Dra. Martins
Entrevistada: D-01121
Prefácio: D-01121 participou de testes com SCP-011-PT 1,6 anos antes desta entrevista. D-01121 foi condenada a 20 anos de prisão por participar de uma quadrilha de tráfico de cannabis como mula de transporte.
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Dra. Martins: Você sente que teve alguma mudança geral ou significativa na sua vida, nos últimos anos desde que viajou para a Amazônia?
D-01121: Uh, não sei, doutora. Fora ler e malhar eu sei lá, acho que tô mais tranquila, em geral. Desde um tempo pra cá eu me sinto mais otimista sobre estar presa e tudo mais, quando eu cumprir meu tempo eu vou tentar meu melhor pra ficar na linha. [pausa] Respondi certo?
Dra. Martins: Por acaso sentiu algum tipo de inspiração, algo que te incentivou com essas tarefas?
D-01121: Olha, ficar presa é meio que um porre, né, se você ficar parada a sua mente te mata. Sei lá, se for pra dizer o que me fez uh, malhar mais, eu diria que foram as meninas do Setor 7.
D-01121: Não sei o que vocês põe no almoço delas que elas ficam com uns braços maiores que a minha cabeça. É sério, doutora, me dá essa bomba aí. Eu sei que já sou boazona porque tipo, olha esse popozão, mas eu toparia virar um Frankestein pra ganhar uns braços massudos daqueles. [risos]
Dra. Martins: Compreendo. Você mencionou 'ler mais', antes, isso também foi inspirado por algo?
D-01121: Um. Não que lembre, não é como se um dia eu tivesse acordado e pensado "Que dia bonito, hoje é que eu paro de ser abestada".
D-01121: Não, espera, teve algo sim. Eu não lembro bem quando, mas eu comecei a lembrar bastante de quando eu tinha uns 14, acho, e tava ouvindo rádio na varanda enquanto varria pra minha vó e tocou uma música meio MPB, de uma cantora com uma voz baixinha.
D-01121: A música era ela tentando falar com uma coruja, dizendo que ia cantar em toda língua que existe até ela responder mas nada funcionava, e, ela acaba gritando tanto, mas tanto de tristeza, que acaba com a própria voz. Aí bem no finalzinho da música o passarinho responde ela e ensina ela a assoviar, e termina com as duas assoviando juntas.
D-01121: Tinha um verso como, "Corujinha, minha amiga, eu te vi e me apaixonei, Hello, Bonjour, Entschuldigung. Mas você finge que não me vê, não me responde nem quer saber". Eu lembrei dessas partes com palavra estrangeira na música e não sei, senti vontade de aprender mais coisa, em geral.
Dra. Martins: Você lembra do nome da música, cantora ou da estação?
D-01121: Puxa, quem dera, sempre que eu tento lembrar dá um branco. Acho que já perguntei pra todo mundo que eu contei sobre ela, mas não sei, não deve ter grudado na época. Eu mesma não lembro de ter ouvido mais de uma vez.
D-01121: Ah, doutora, sobre a coisa de inspiração eu devia ter falado da Marcela também.
Dra. Martins: Marcela?
D-01121: É.
D-01121: Sabe, doutora, eu não fui alfabetizada quando eu era criança. Eu tive que fazer serviço em casa de parente desde jovem, aí parente virou patroa, patroa virou a coisa da erva, você sabe a ficha.
D-01121: Eu brinquei antes dizendo que era abestada, mas, tipo, eu nunca me senti mais inferior que alguém que foi pra escola. Minha vó sempre me disse que esperteza vem da vida, sabe, de suar e aprender na marra, e foi assim que eu soube como — como me virar, conversando e ouvindo. Eu sei que sou mais esperta que umas madames que nunca foram humilhadas, nunca esfregaram um chão com uma escovinha de dente pra não passar fome.
D-01121: Mas ficando aqui e no outro setor, eu conheci muita gente, gente que me deu vontade de ser uma pessoa mais realizada, mais mente aberta. Conhece uma menina meio magricela alta, do 4, a de óculos? Então, essa é a Marcela. Ela é minha amigona.
D-01121: Eu conheço ela faz o que, um ano, por aí. Quando ela chegou aqui já tinha cumprido uns 10, mas veio sozinha, não chegava muito com o pessoal, esse tipo de coisa.
D-01121: Então, eu via ela na dela e não sei, deu vontade de me aproximar, dar o primeiro passo que ninguém dava. E tipo, a gente batia um papinho básico, mas ela era de outro nível, ela ficava tentando falar de uns livros lá que ela lia porque frequentava muito a biblioteca, muito mesmo, mas eu ficava tão nervosa com aquelas coisas filosóficas que eu começava a rir e falava "Porra, Marcela, fala minha língua, cara!" [risos]
D-01121: Mas tipo, eu não queria me afastar dela, sabe.
D-01121: Eu acho a história de vida dela muito tocante. Ela passou por muita coisa pesada na vida, teve que fazer coisa pra gente esquisita igual eu mas acabou viciada em pedra e acabou presa. Disse que tava tão desesperada que tentou roubar um mercado com uma peixeira e cortou fora dedo de um guarda, doido. Ela tenta falar com o filho dela na Bahia, que deve já estar com uns 25 mas ele não responde, isso deixa ela muito magoada.
D-01121: [pausa] Sabe essa história da peixeira, ela conta pros outros rindo mas quando você conhece ela de verdade, dá pra ver que ela sente vergonha disso. Eu acho que muitas das garotas aqui que ficam se gabando de ter roubado fulano e matado sicrano tem um peso escondido, na alma mesmo, que elas tem vergonha de admitir a Deus.
D-01121: Mas então, eu não queria deixar ela meio excluída de novo só porque a gente não se entendia direito, né. Então um dia eu falei pra ela, "Porra, cara, e se eu entrar no cursinho que eles dão aqui? Aí eu ia entender tua língua mais".
D-01121: Eu tava esperando ela rir da minha cara, mas ela ficou animada. Ficou dizendo que ia me ajudar, ia testar o que eu aprendesse, e sabe, isso foi uma força enorme. Eu sozinha me esforcei pra cacete, mas foi muita moral que ela me deu. Consegui tirar meu diploma em 10 meses, leio de tudo, discuto coisa complexa com a Marcela e com o outro pessoal que passa na biblioteca. Desde que me eduquei eu sinto que sou uma mulher muito mais realizada, mais guerreira.
Dra. Martins: Isso é ótimo. Você parece admirar bastante [Marcela].
D-01121: Falando assim acho que parece mesmo [risos]. Pra ser sincera eu sou meio fechada em me expressar, mas pra ela eu digo na cara dela mesmo que ela é um mulherão da porra, porque é verdade! Ela não me diz quanto falta pra ela cumprir o tempo dela, mas eu já disse pra ela "Cara, se eu sair antes eu juro que te espero lá fora", porque eu quero dar força pra ela falar com o menino dela, com o passarinho dela na Bahia. E se não der eu dou força de qualquer jeito que eu conseguir, porque quero ajudar ela a subir na vida, continuar limpa, essas coisas. Talvez até morar juntas pra uma ficar de olho na outra, dividir uma kitnet. Eu acho que devo isso pra ela, dar um apoio como ela me deu.
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Entrevistadora: Dra. Álvarez
Entrevistada: Sra. Ramos
Prefácio: Afim de coletar resultados de efeitos -3 em indivíduos sem atividade ilícita prévia, pesquisadores 011-PT foram autorizados a anunciar descontos para hidroterapias experimentais (como uma empresa de fachada) em classificados, afim de recrutar cobaias a participarem de experimentos voluntariamente. Informações e documentação relevante podem ser encontradas no documento Operação: OpenAqua Amazônia.
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Dra. Álvarez: Você sente que teve alguma mudança geral ou significativa na sua vida, nos últimos anos desde que viajou para a Amazônia?
Sra. Ramos: Menina, faz tanto tempo, acho que minha vida mudou completamente. Você – você pode me ajudar? Perguntar algo mais exato, sobre emprego, casa. Só para fluir melhor a memória.
Dra. Álvarez: Teve algum ponto, assim, algum momento que pode apontar como o início da ‘mudança completa’ que ocorreu na sua vida?
Sra. Ramos: Deixa eu pensar…// [pausa]// Acho que foi quando… [pausa] Não, foi antes, se for pensar direito. Acho que quando eu comecei pensar bastante sobre uma pintura que vi em um brechó.
Dra. Álvarez: Pintura?
Sra. Ramos: Era um quadro meio Rococó, sabe, com duas moças… não dá para ver o rosto delas, mas são moças. Uma delas, na frente do quadro, estava de lado com o rosto virado para trás, com uma mão dela aparecendo no quadro, cortando o próprio cabelo bem curtinho, na orelha. Então, enquanto ela faz isso, a outra moça — ela beija a outra moça, na frente dela, enquanto ela bota a mão no rosto da primeira. Não dá pra ver exatamente esse beijo, mas assim, aquela postura toda não é de alguém beijando a bochecha, pra mim.
Sra. Ramos: Essas moças, elas eram bonitas. As duas eram escuras como eu e você, mas a de trás tinha uma aura, uma luz branca saindo da cabeça como aquelas imagens de santa. A da frente vestia um terno com um efeito meio brilhante, parecia estrelas. Não aparecia o rosto de nenhuma delas direito, mas eu sentia que elas estavam sorrindo.
Dra. Álvarez: É uma pintura bem bonita, imagino.
Sra. Ramos: É. Eu acho que vi esse quadro quando eu tinha lá por uns 15, por aí , mas só nesses anos depois da viagem que eu lembrei como ele era lindo. Teve um senhor muito simpático que me disse uma vez que arte boa é aquela que inspira, que toca o ser humano… isso que eu sinto por esse quadro é assim, parece que ele, sabe, falou comigo. [pausa] Ele me disse que moças podem fazer essas coisas, sabe, que podem se gostar assim.
Sra. Ramos: Você sabia disso, doutora? Acho que tem muita gente que nem pensa nisso, pelo menos não as pessoas com quem falei, de primeira.
Dra. Álvarez: Creio que ainda existe um certo taboo sobre relacionamentos deste tipo, infelizmente. Você quer falar sobre essas conversas, com essas pessoas?
Sra. Ramos: Eu posso tentar, não sei se vai compreender mesmo porque tem umas coisas que contextualizam, a história toda, pelo menos o meu motivo particular de pensar assim. E eu não sei se você não — não quer ouvir sobre isso. Muita gente com quem eu falei meio que só ficou me olhando como se eu fosse doida, então não sei se devia falar, mesmo você sendo profissional, e tudo mais.
Dra. Álvarez: Bem, você pode confiar que lidarei com qualquer informação delicada da forma mais profissional e compreensiva possível.
Sra. Ramos: Então tá, vou tentar. [pausa] Eu fui abusada quando eu era mais jovem, quando tinha uns 7. Meu padrasto, um homem desgraçado, nojento, bêbado, que batia em mulher sem dó, ele que abusou de mim. Ele não fez o ato diretamente, sabe. Mas ele me tocou, doutora. Ele fedia, nunca deixou de feder. Eu juro, te juro, que nunca vou me esquecer daquele homem hediondo, ele era a pura essência de satanás, mas na época eu não tinha consciência disso. Eu achava que eu que tinha feito algo de errado pra ele fazer aquilo comigo. Que eu era uma moça suja, que tava sendo punida pelo Senhor.
Sra. Ramos: Então eu falei com mamãe. Falei mamãe, eu me sinto suja, mamãe. Eu não quero mais ver seu marido, mamãe, eu quero ficar trancada. Não quero olhem pra mim, mamãe, eu vou virar freira, vou me dedicar só ao Senhor. Mamãe me ouviu naquele dia, graças a Deus e ela arranjou da gente morar em uma casinha alugada pela minha tia de parte de pai. Eu me sentia um pouquinho melhor assim, mas ainda passei muito sufoco pessoal, passei a dormir sentada pra parar de acordar no meio do sono com demônio na minha cabeça.
Dra. Álvarez: Eu sinto muito que tenha passado por isso. Aceita um copo d’água?
Sra. Ramos: Não, doutora, tá tudo bem, essa é minha vida. Eu aprendi a aceitar que essa é minha história. Só tenho que aceitar e não deixar isso ficar no meu caminho mais.
Sra. Ramos: Então tá, né, a vida foi indo, eu fui crescendo na igreja com os outros dizendo que um dia eu ia arranjar um moço que ia me tirar a tristeza do coração, mas — eu tinha muito medo de me casar, de deitar com um homem. A um ano atrás, acho, eu acho que cansei de ficar prendendo esse sentimento na cabeça e fui falar com outras moças, né, da igreja, pra saber se mais alguém se sentia encurralada assim, no fundo, e se casamento realmente ajudou.
Sra. Ramos: Duas moças que eu falei disseram que ah, é assim mesmo, a gente aceita essas coisas pelo marido porque é o certo, ser uma boa mulher. Mas teve duas outras moças – minhas amigas Claudete e Luana — elas disseram não, eu tenho medo também porque eu vi minha mãe passar aperto e não quero isso pra mim, porque eu não quero ficar cuidando de casa. Mas a gente não queria se afastar do Senhor.
Sra. Ramos: Eu disse pra elas, sabe, eu vi uma pintura muito bonita a muito tempo atrás, com umas moças juntas. Não seria bom se a gente pudesse se amar, se casar sem precisar desses homens podres na nossa vida? Ah doutora, elas ficaram rindo, mas, eu falei sério. Elas ficaram dizendo "Ih eu não, Gisele, isso aí é esquisito, não tem isso de mulher com mulher não, sai pra lá". Eu fiquei tão zangada com elas rindo de mim que eu fui falar com mamãe no mesmo dia.
Sra. Ramos: Eu contei da conversa e falei: então, eu vi a pintura assim e tal, não quer dizer que pode? E ela respondeu, não, Deus não planejou isso pra você, a gente vai conversar com o pastor. E, sabe, eu fiquei extremamente indignada porque, como assim? Foi me dito a vida toda que — que eu era amada pelo Senhor, eu segui a palavra até meus 22 anos e agora mamãe dizia na minha frente que eu não estava fazendo o que Ele planejou pra mim? Ah não. Eu tomei coragem e disse assim: “ah, mãe, eu tenho certeza que meu Deus me ama e é isso que ele quer pra mim sim e se eu só conseguir deitar com moça esse é o plano dele pra minha vida!”
Sra. Ramos: Olha, doutora, você devia ver a cara dela quando eu disse isso, acho que foi a primeira vez que eu levante minha voz pra ela na minha vida. Ela gritou logo em seguida: "então se é assim tu podes tirar seus pertences dessa casa que eu não quero filha minha se enroscando com mulher não!" [risos] eu não sei, doutora, deu uma vontade assim, de desafiar ela, que eu disse "então tá" e pus-me a fazer minhas malas.
Sra. Ramos: Sabe, naquela hora eu nem pensava se aquilo era verdade mesmo, se eu realmente queria me enroscar porque nem sabia o que isso significava, mas eu sentia que tinha que fazer aquilo por amor ao Senhor. Eu tinha cada vez mais certeza de que era isso que ele tava querendo que eu fizesse, ser dona da minha própria vida.
Sra. Ramos: Fora de casa eu arranjei rapidinho um emprego tomando conta de uma senhoria da igreja que ainda gostava de mim e ela me deixou morar na casa dela pra ajudar. Mamãe espalhou notícia de que não tinha mais filha, me afastou da igreja, mas eu ainda conversava com a Claudete e a Luana pelo telefone e a gente tentava se ver no fim de semana na pracinha lá perto.
Sra. Ramos: Enquanto eu morei na dona Célia ela me deixava usar o computador dela pra passar o tempo, estudar alguma coisa e eu procurei mais sobre isso tudo, achar mais gente que gostava de moça pra ter certeza que eu tava certa mesmo. [risos] Eu ficava com os olhos todo arregalado com as coisas que eu apertava sem querer, mas eu no fundo tinha muita curiosidade de aprender sobre essas coisas porque poxa, olha minha idade!
Sra. Ramos: Eu comentei dessas coisas com minhas amigas e elas ficavam assustadas, às vezes até diziam que eu tinha era que me benzê mas eu dizia “não, o mundo é assim mesmo gente, e eu acho que sou assim também e eu não vou deitar com homem nenhum, tô decidida”. Eu sabia que elas me achavam estranha demais por causa desses papos todos mas tinham a mesma curiosidade que eu tinha no fundo e por isso que não paravam de conversar. Enfim, um dia a Luana deu de me beijar, dizendo que queria ver se era bom mesmo.
Sra. Ramos: Eu não contei pra ela mas aquele foi meu primeiro beijo com mulher e eu senti um pouco de medo. Ela meio que parou de falar comigo depois disso, acho que ela percebeu que aquilo não era pra ela…eu chorei bastante durante dias até ter coragem de tentar participar num desses fóruns que eu fuçava e, sabe, desabafar. As moças que eu encontrei me ajudaram muito.
Sra. Ramos: Elas me ajudaram a aprender mais da vida, como se fossem segundas mães. Com elas eu tirei minha carteira, trabalhei em um hotel e depois num restaurante, arranjei uma casinha de aluguel. Conheci pessoalmente umas moças de uns bares na cidade grande que eram de igreja igual a mim, nos tornamos amigas e até fizemos nosso grupinho de reza particular. Começamos a nos vestir diferente, cortando cabelo, usando calça, bermuda, nos divertimos bastante com coisas que a igreja dizia que não podia mas que a gente sabia que Deus ia aceitar a gente do jeito que gente fosse feliz.
Sra. Ramos: Aí uns 3 meses atrás mamãe me achou e quis se desculpar. Eu a perdoei, claro, mas não voltei pra casa… agora eu me sentia livre de verdade, entende?
Sra. Ramos: No passado, acho que até aquele momento que eu saí de casa e segui meu caminho com minha própria fé, eu não senti que estava próxima do Senhor. Agora eu sentia isso no fundo do meu coração, me vestindo com roupa de homem, tendo intimidade com mulher igual a mim. Eu não queria me afastar do meu Deus de novo, me sentir suja. Então eu sigo esse rumo agora e…estou feliz, por mais que tenha gente que me veja com olho torto, xingando, cuspindo em mim. Eu me amo e sei que meu Deus me ama também.
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Entrevistadora: Dra. Martins
Entrevistada: Pesquisadora Júnior Vieira
Prefácio: Uma proposta foi levantada sobre a possibilidade de avaliar efeitos SCP-011-PT-3 em indivíduos que tomassem conhecimento prévio sobre mudanças comportamentais esperadas e se tal conhecimento resultaria em efeitos derivados dos comumente registrados. Sob aprovação, um experimento à parte foi feito com assistência de um funcionário voluntário, que seria realocado para atividades não-relacionadas a SCP-011-PT. Pesquisadora Júnior Vieira foi concedida acesso ao documento SCP-011-PT enquanto era observada durante o período de 1 ano.
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Dra. Martins: Você se lembra de detalhes de SCP-011-PT?
Pesquisadora Júnior Vieira: Sim, eu conferi o arquivo semanalmente.
Dra. Martins: Acha que SCP-011-PT pode ter influenciado decisões particulares na sua vida, inconscientemente ou conscientemente?
Pesquisadora Júnior Vieira: Talvez, talvez não. Digo, teve a coisa do enredo mas acho que isso não acaba sendo—
Dra. Martins: Desculpe, mas poderia informar qual enredo seria esse, especificamente? Para o registro.
Pesquisadora Júnior Vieira: Era uma minissérie sobre uma freira e uma enfermeira ajudando grupos subversivos contra a ditadura militar, com a trama sendo sobre elas terem motivos conflitantes sobre o que era o certo e não. O enredo é relevante a algo? O que você quer saber é se eu tive alguma epifania, se virei lésbica do nada, algo do tipo, não?
Dra. Martins: Queremos saber se você sente que teve alguma mudança significativa na sua vida e se ela foi provida por SCP-011-PT.
Pesquisadora Júnior Vieira: Mas a que grau nós podemos definir isso como algo anômalo? A implantação de uma memória artificial é uma anomalia bem óbvia, claro, mas a influência das memórias em si não é algo que poderia ser notado com qualquer tipo de evento significativo na vida de uma mulher? Ou — ou de qualquer pessoa.
Dra. Martins: Bem. Apesar de percebermos essas tendências como um componente da anomalia, nunca afirmamos que é algo anômalo, em si. Você sabe que, como cientistas, nós temos a obrigação de citar fatos que possam ser ou não ser relevantes para nossos estudos.
Pesquisadora Júnior Vieira: Sim, eu entendo. Mas realmente, você não acha que… que isso poderia acontecer com qualquer outra coisa, qualquer outro tipo de memória que criasse um impacto no seu modo de pensar? Sobre vida, amor.
Pesquisadora Júnior Vieira: Digo, pense nas suas aspirações de quando era criança. Você não conheceu ninguém, ou viu algum filme ou alguma coisa que te levou a pensar 'poxa, em quero ser sei lá, veterinária. Poxa, tem tanta gente que morre de câncer, acho que vou virar cientista e descobrir a cura para câncer'.
Pesquisadora Júnior Vieira: E o mesmo para amor, também, como algum tipo de beleza inerente que nunca tivesse percebido, o básico de atração. Como alguém cria um 'tipo'? Desde loiras e morenas a… homens e mulheres. Eu não sei.
Dra. Martins: Eu não acho que estou seguindo sua linha de pensamento.
Pesquisadora Júnior Vieira: Só acho que…acho que os efeitos da anomalia não são inerentes da anomalia. Talvez nem sejam inerentes de algo marcante, em si. Acho que todas essas mulheres — inclusive eu, e você — possuem a capacidade de se tornarem mais felizes ou ambiciosas amando umas as outras. Não precisa nem ser algo exclusivo nem lésbico com todas as letras mas… dar prioridade à mulheres na vida, em geral. Isso só não é algo realmente pensado, pela maioria das pessoas.
Pesquisadora Júnior Vieira: Talvez o verdadeiro efeito desse scip não seja 'implantar' ideias, nem 'influenciar', mas 'sugerir'. Acho que a capacidade de amar já estava dentro de nós esse tempo todo e nós só seguimos o que foi sugerido, por vontade própria. E, sabe. Mesmo com dificuldades e tristezas nas nossas vidas, nossos relacionamentos particulares, somos mais felizes assim.
Dra. Martins: É algo interessante de se pensar, entretanto, você não acha que assumir algo assim, tão pessoal e subjetivo para mulheres como um todo é algo muito passional?
Pesquisadora Júnior Vieira: Huh, talvez. Mas eu estou cheia de paixão, Martins. E tenho certeza de que todas as outras mulheres também estariam, se experimentassem esse tipo de amor.
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Relatório de Descoberta e Recuperação: A Fundação tornou-se consciente da existência da atividade anômala do objeto na região por meio de incidentes envolvendo turistas desaparecendo entre os meses de Março e Julho após interagirem com "um lago repleto de vitórias-régias que criavam gelo, e tinham lírios fluorescentes a noite".
SCP-011-PT foi documentado pela primeira vez em 18██, datado a época de anexação da Província do Amazonas pelo governo do Brasil Império. Durante a exploração capital, indivíduos encontraram a extensão hídrica relevante, notando suas características extraordinárias, levando o Conservatório Real de Ciências Paranormais a assumir as operações de pesquisas na zona.7
Entrevistadora: Dra. Martins
Entrevistada: D-01121
Prefácio: D-01121 participou de testes com SCP-PT dia x/y/z, 1,6 anos antes desta entrevista. D-01121 foi condenada a 20 anos de prisão por participar de uma quadrilha de tráfico de cannabis como mula de transporte.
[Iniciar Registro]
Dra. Martins: Você sente que teve alguma mudança geral ou significativa na sua vida, nos últimos anos desde que viajou para a Amazônia?
D-01121: Uh, não sei, doutora, fora ler e malhar eu sei lá, acho que tô mais tranquila, em geral. Desde um tempo pra cá eu me sinto mais otimista sobre estar presa e tudo mais, quando eu cumprir meu tempo eu vou tentar meu melhor pra ficar na linha. [pausa] Respondi certo?
Dra. Martins: Por acaso sentiu algum tipo de inspiração, algo que te incentivou com essas tarefas?
D-01121: Olha, ficar presa é meio que um porre, né, se você ficar parada a sua mente te mata. Sei lá, se for pra dizer o que me fez uh, malhar mais, eu diria que foram as meninas do Setor 7.
D-01121: Não sei o que vocês põe no almoço delas que elas ficam com uns braços maiores que a minha cabeça. É sério, doutora, me dá essa bomba aí. Eu sei que já sou boazona porque tipo, olha esse popozão todo fit, mas eu toparia virar um Frankestein pra ganhar uns braços massudos daqueles. [risos]
Dra. Martins: Compreendo. Você mencionou 'ler mais', antes, isso também foi inspirado por algo?
D-01121: Um. Não que lembre, não é como se um dia eu tivesse acordado e pensado "Que dia bonito, hoje é que eu paro de ser abestada".
D-01121: Não, espera, teve algo sim. Eu não lembro bem quando, mas eu comecei a lembrar bastante de quando eu tinha uns 14, acho, e tava ouvindo rádio na varanda enquanto varria pra minha vó e tocou uma música meio MPB, de uma cantora com uma voz baixinha.
D-01121: A música era ela tentando falar com uma coruja, dizendo que ia cantar em toda língua que existe até ela responder mas nada funcionava, e, ela acaba gritando tanto, mas tanto de tristeza, que acaba com a própria voz. Aí bem no finalzinho da música o passarinho responde ela e ensina ela a assoviar, e termina com as duas assoviando juntas.
D-01121: Tinha um verso como, "Corujinha, minha amiga, eu te vi e me apaixonei, Hello, Bonjour, Entschuldigung. Mas você finge que não me vê, não me responde nem quer saber". Eu lembrei dessas partes com palavra estrangeira na música e não sei, senti vontade de aprender mais coisa, em geral.
Dra. Martins: Você lembra do nome da música, cantora ou da estação?
D-01121: Puxa, quem dera, sempre que eu tento lembrar dá um branco. Acho que já perguntei pra todo mundo que eu contei sobre ela, mas não sei, não deve ter grudado na época. Eu mesma não lembro de ter ouvido mais de uma vez.
D-01121: Ah, doutora, sobre a coisa de inspiração eu devia ter falado da Marcela também.
Dra. Martins: Marcela?
D-01121: É.
D-01121: Sabe, doutora, eu não fui alfabetizada quando eu era criança. Eu tive que fazer serviço em casa de parente desde jovem, aí parente virou patroa, patroa virou a coisa da erva, você sabe a ficha.
D-01121: Eu brinquei antes dizendo que era abestada, mas, tipo, eu nunca me senti mais inferior que alguém que foi pra escola. Minha vó sempre me disse que esperteza vem da vida, sabe, de suar e aprender na marra, e foi assim que eu soube como — como me virar, conversando e ouvindo. Eu sei que sou mais esperta que umas madames que nunca foram humilhadas, nunca esfregaram um chão com uma escovinha de dente pra não passar fome.
D-01121: Mas ficando aqui e no outro setor, eu conheci muita gente, gente que me deu vontade de ser uma pessoa mais realizada, mais mente aberta. Conhece uma menina meio magricela alta, do 4, a de óculos? Então, essa é a Marcela. Ela é minha amigona.
D-01121: Eu conheço ela faz o que, um ano, por aí. Quando ela chegou aqui já tinha cumprido uns 10, mas veio sozinha, não chegava muito com o pessoal, esse tipo de coisa.
D-01121: Então, eu via ela na dela e não sei, deu vontade de me aproximar, dar o primeiro passo que ninguém dava. E tipo, a gente batia um papinho básico, mas ela era de outro nível, ela ficava tentando falar de uns livros lá que ela lia porque frequentava muito a biblioteca, muito mesmo, mas eu ficava tão nervosa com aquelas coisas filosóficas que eu começava a rir e falava "Porra, Marcela, fala minha língua, cara!" [risos]
D-01121: Mas tipo, eu não queria me afastar dela, sabe.
D-01121: Eu acho a história de vida dela muito tocante. Ela passou por muita coisa pesada na vida, teve que fazer coisa pra gente esquisita igual eu mas acabou viciada em pedra e acabou presa. Disse que tava tão desesperada que tentou roubar um mercado com uma peixeira e cortou fora dedo de um guarda, doido. Ela tenta falar com o filho dela na Bahia, que deve já estar com uns 25 mas ele não responde, isso deixa ela muito magoada.
D-01121: [pausa] Sabe essa história da peixeira, ela conta pros outros rindo mas quando você conhece ela de verdade, dá pra ver que ela sente vergonha disso. Eu acho que muitas das garotas aqui que ficam se gabando de ter roubado fulano e matado sicrano tem um peso escondido, na alma mesmo, que elas tem vergonha de admitir a Deus.
D-01121: Mas então, eu não queria deixar ela meio excluída de novo só porque a gente não se entendia direito, né. Então um dia eu falei pra ela, "Porra, cara, e se eu entrar no cursinho que eles dão aqui? Aí eu ia entender tua língua mais".
D-01121: Eu tava esperando ela rir da minha cara, mas ela ficou animada. Ficou dizendo que ia me ajudar, ia testar o que eu aprendesse, e sabe, isso foi uma força enorme. Eu sozinha me esforcei pra cacete, mas foi muita moral que ela me deu. Consegui tirar meu diploma em 10 meses, leio de tudo, discuto coisa complexa com a Marcela e com o outro pessoal que passa na biblioteca. Desde que me eduquei eu sinto que sou uma mulher muito mais realizada, mais guerreira.
Dra. Martins: Isso é ótimo. Você parece admirar bastante [Marcela].
D-01121: Falando assim acho que parece mesmo [risos]. Pra ser sincera eu sou meio fechada em me expressar, mas pra ela eu digo na cara dela mesmo que ela é um mulherão da porra, porque é verdade! Ela não me diz quanto falta pra ela cumprir o tempo dela, mas eu já disse pra ela "Cara, se eu sair antes eu juro que te espero lá fora", porque eu quero dar força pra ela falar com o menino dela, com o passarinho dela na Bahia. E se não der eu dou força de qualquer jeito que eu conseguir, porque quero ajudar ela a subir na vida, continuar limpa, essas coisas. Talvez até morar juntas pra uma ficar de olho na outra, dividir uma kitnet. Eu acho que devo isso pra ela, dar um apoio como ela me deu.
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Entrevistadora: Dra. Álvarez
Entrevistada: Sra. Ramos
Prefácio: Afim de coletar resultados de efeitos -3 em indivíduos sem atividade ilícita prévia, pesquisadores 011-PT foram autorizados a anunciar descontos para hidroterapias experimentais (como uma empresa de fachada) em classificados, afim de recrutar cobaias a participarem de experimentos voluntariamente. Informações e documentação relevante podem ser encontradas no documento Operação: OpenAqua Amazônia.
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Dra. Álvarez: Você sente que teve alguma mudança geral ou significativa na sua vida, nos últimos anos desde que viajou para a Amazônia?
Sra. Ramos: Menina, faz tanto tempo, acho que minha vida mudou completamente. Você – você pode me ajudar? Perguntar algo mais exato, sobre emprego, casa. Só para fluir melhor a memória.
Dra. Álvarez: Teve algum ponto, assim, algum momento que pode apontar como o início da ‘mudança completa’ que ocorreu na sua vida?
Sra. Ramos: Deixa eu pensar…// [pausa]// Acho que foi quando… [pausa] Não, foi antes, se for pensar direito. Acho que quando eu comecei pensar bastante sobre uma pintura que vi em um brechó.
Dra. Álvarez: Pintura?
Sra. Ramos: Era um quadro meio Rococó, sabe, com duas moças… não dá para ver o rosto delas, mas são moças. Uma delas, na frente do quadro, estava de lado com o rosto virado para trás, com uma mão dela aparecendo no quadro, cortando o próprio cabelo bem curtinho, na orelha. Então, enquanto ela faz isso, a outra moça — ela beija a outra moça, na frente dela, enquanto ela bota a mão no rosto da primeira. Não dá pra ver exatamente esse beijo, mas assim, aquela postura toda não é de alguém beijando a bochecha, pra mim.
Sra. Ramos: Essas moças, elas eram bonitas. As duas eram escuras como eu e você, mas a de trás tinha uma aura, uma luz branca saindo da cabeça como aquelas imagens de santa. A da frente vestia um terno com um efeito meio brilhante, parecia estrelas. Não aparecia o rosto de nenhuma delas direito, mas eu sentia que elas estavam sorrindo.
Dra. Álvarez: É uma pintura bem bonita, imagino.
Sra. Ramos: É. Eu acho que vi esse quadro quando eu tinha lá por uns 15, por aí , mas só nesses anos depois da viagem que eu lembrei como ele era lindo. Teve um senhor muito simpático que me disse uma vez que arte boa é aquela que inspira, que toca o ser humano… isso que eu sinto por esse quadro é assim, parece que ele, sabe, falou comigo. [pausa] Ele me disse que moças podem fazer essas coisas, sabe, que podem se gostar assim.
Sra. Ramos: Você sabia disso, doutora? Acho que tem muita gente que nem pensa nisso, pelo menos não as pessoas com quem falei, de primeira.
Dra. Álvarez: Creio que ainda existe um certo taboo sobre relacionamentos deste tipo, infelizmente. Você quer falar sobre essas conversas, com essas pessoas?
Sra. Ramos: Eu posso tentar, não sei se vai compreender mesmo porque tem umas coisas que contextualizam, a história toda, pelo menos o meu motivo particular de pensar assim. E eu não sei se você não — não quer ouvir sobre isso. Muita gente com quem eu falei meio que só ficou me olhando como se eu fosse doida, então não sei se devia falar, mesmo você sendo profissional, e tudo mais.
Dra. Álvarez: Bem, você pode confiar que lidarei com qualquer informação delicada da forma mais profissional e compreensiva possível.
Sra. Ramos: Então tá, vou tentar. [pausa] Eu fui abusada quando eu era mais jovem, quando tinha uns 7. Meu padrasto, um homem desgraçado, nojento, bêbado, que batia em mulher sem dó, ele que abusou de mim. Ele não fez o ato diretamente, sabe. Mas ele me tocou, doutora. Ele fedia, nunca deixou de feder. Eu juro, te juro, que nunca vou me esquecer daquele homem hediondo, ele era a pura essência de satanás, mas na época eu não tinha consciência disso. Eu achava que eu que tinha feito algo de errado pra ele fazer aquilo comigo. Que eu era uma moça suja, que tava sendo punida pelo Senhor.
Sra. Ramos: Então eu falei com mamãe. Falei mamãe, eu me sinto suja, mamãe. Eu não quero mais ver seu marido, mamãe, eu quero ficar trancada. Não quero olhem pra mim, mamãe, eu vou virar freira, vou me dedicar só ao Senhor. Mamãe me ouviu naquele dia, graças a Deus e ela arranjou da gente morar em uma casinha alugada pela minha tia de parte de pai. Eu me sentia um pouquinho melhor assim, mas ainda passei muito sufoco pessoal, passei a dormir sentada pra parar de acordar no meio do sono com demônio na minha cabeça.
Dra. Álvarez: Eu sinto muito que tenha passado por isso. Aceita um copo d’água?
Sra. Ramos: Não, doutora, tá tudo bem, essa é minha vida. Eu aprendi a aceitar que essa é minha história. Só tenho que aceitar e não deixar isso ficar no meu caminho mais.
Sra. Ramos: Então tá, né, a vida foi indo, eu fui crescendo na igreja com os outros dizendo que um dia eu ia arranjar um moço que ia me tirar a tristeza do coração, mas — eu tinha muito medo de me casar, de deitar com um homem. A um ano atrás, acho, eu acho que cansei de ficar prendendo esse sentimento na cabeça e fui falar com outras moças, né, da igreja, pra saber se mais alguém se sentia encurralada assim, no fundo, e se casamento realmente ajudou.
Sra. Ramos: Duas moças que eu falei disseram que ah, é assim mesmo, a gente aceita essas coisas pelo marido porque é o certo, ser uma boa mulher. Mas teve duas outras moças – minhas amigas Claudete e Luana — elas disseram não, eu tenho medo também porque eu vi minha mãe passar aperto e não quero isso pra mim, porque eu não quero ficar cuidando de casa. Mas a gente não queria se afastar do Senhor.
Sra. Ramos: Eu disse pra elas, sabe, eu vi uma pintura muito bonita a muito tempo atrás, com umas moças juntas. Não seria bom se a gente pudesse se amar, se casar sem precisar desses homens podres na nossa vida? Ah doutora, elas ficaram rindo, mas, eu falei sério. Elas ficaram dizendo "Ih eu não, Gisele, isso aí é esquisito, não tem isso de mulher com mulher não, sai pra lá". Eu fiquei tão zangada com elas rindo de mim que eu fui falar com mamãe no mesmo dia.
Sra. Ramos: Eu contei da conversa e falei: então, eu vi a pintura assim e tal, não quer dizer que pode? E ela respondeu, não, Deus não planejou isso pra você, a gente vai conversar com o pastor. E, sabe, eu fiquei extremamente indignada porque, como assim? Foi me dito a vida toda que — que eu era amada pelo Senhor, eu segui a palavra até meus 22 anos e agora mamãe dizia na minha frente que eu não estava fazendo o que Ele planejou pra mim? Ah não. Eu tomei coragem e disse assim: “ah, mãe, eu tenho certeza que meu Deus me ama e é isso que ele quer pra mim sim e se eu só conseguir deitar com moça esse é o plano dele pra minha vida!”
Sra. Ramos: Olha, doutora, você devia ver a cara dela quando eu disse isso, acho que foi a primeira vez que eu levante minha voz pra ela na minha vida. Ela gritou logo em seguida: "então se é assim tu podes tirar seus pertences dessa casa que eu não quero filha minha se enroscando com mulher não!" [risos] eu não sei, doutora, deu uma vontade assim, de desafiar ela, que eu disse "então tá" e pus-me a fazer minhas malas.
Sra. Ramos: Sabe, naquela hora eu nem pensava se aquilo era verdade mesmo, se eu realmente queria me enroscar porque nem sabia o que isso significava, mas eu sentia que tinha que fazer aquilo por amor ao Senhor. Eu tinha cada vez mais certeza de que era isso que ele tava querendo que eu fizesse, ser dona da minha própria vida.
Sra. Ramos: Fora de casa eu arranjei rapidinho um emprego tomando conta de uma senhoria da igreja que ainda gostava de mim e ela me deixou morar na casa dela pra ajudar. Mamãe espalhou notícia de que não tinha mais filha, me afastou da igreja, mas eu ainda conversava com a Claudete e a Luana pelo telefone e a gente tentava se ver no fim de semana na pracinha lá perto.
Sra. Ramos: Enquanto eu morei na dona Célia ela me deixava usar o computador dela pra passar o tempo, estudar alguma coisa e eu procurei mais sobre isso tudo, achar mais gente que gostava de moça pra ter certeza que eu tava certa mesmo. [risos] Eu ficava com os olhos todo arregalado com as coisas que eu apertava sem querer, mas eu no fundo tinha muita curiosidade de aprender sobre essas coisas porque poxa, olha minha idade!
Sra. Ramos: Eu comentei dessas coisas com minhas amigas e elas ficavam assustadas, às vezes até diziam que eu tinha era que me benzê mas eu dizia “não, o mundo é assim mesmo gente, e eu acho que sou assim também e eu não vou deitar com homem nenhum, tô decidida”. Eu sabia que elas me achavam estranha demais por causa desses papos todos mas tinham a mesma curiosidade que eu tinha no fundo e por isso que não paravam de conversar. Enfim, um dia a Luana deu de me beijar, dizendo que queria ver se era bom mesmo.
Sra. Ramos: Eu não contei pra ela mas aquele foi meu primeiro beijo com mulher e eu senti um pouco de medo. Ela meio que parou de falar comigo depois disso, acho que ela percebeu que aquilo não era pra ela…eu chorei bastante durante dias até ter coragem de tentar participar num desses fóruns que eu fuçava e, sabe, desabafar. As moças que eu encontrei me ajudaram muito.
Sra. Ramos: Elas me ajudaram a aprender mais da vida, como se fossem segundas mães. Com elas eu tirei minha carteira, trabalhei em um hotel e depois num restaurante, arranjei uma casinha de aluguel. Conheci pessoalmente umas moças de uns bares na cidade grande que eram de igreja igual a mim, nos tornamos amigas e até fizemos nosso grupinho de reza particular. Começamos a nos vestir diferente, cortando cabelo, usando calça, bermuda, nos divertimos bastante com coisas que a igreja dizia que não podia mas que a gente sabia que Deus ia aceitar a gente do jeito que gente fosse feliz.
Sra. Ramos: Aí uns 3 meses atrás mamãe me achou e quis se desculpar. Eu a perdoei, claro, mas não voltei pra casa… agora eu me sentia livre de verdade, entende?
Sra. Ramos: No passado, acho que até aquele momento que eu saí de casa e segui meu caminho com minha própria fé, eu não senti que estava próxima do Senhor. Agora eu sentia isso no fundo do meu coração, me vestindo com roupa de homem, tendo intimidade com mulher igual a mim. Eu não queria me afastar do meu Deus de novo, me sentir suja. Então eu sigo esse rumo agora e…estou feliz, por mais que tenha gente que me veja com olho torto, xingando, cuspindo em mim. Eu me amo e sei que meu Deus me ama também.
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Entrevistadora: Dra. Martins
Entrevistada: Pesquisadora Júnior Vieira
Prefácio: Uma proposta foi levantada sobre a possibilidade de avaliar efeitos SCP-011-PT-3 em indivíduos que tomassem conhecimento prévio sobre mudanças comportamentais esperadas e se tal conhecimento resultaria em efeitos derivados dos comumente registrados. Sob aprovação, um experimento à parte foi feito com assistência de um funcionário voluntário, que seria realocado para atividades não-relacionadas a SCP-011-PT. Pesquisadora Júnior Vieira foi concedida acesso ao documento SCP-011-PT enquanto era observada durante o período de 1 ano.
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Dra. Martins: Você se lembra de detalhes de SCP-011-PT?
Pesquisadora Júnior Vieira: Sim, eu conferi o arquivo semanalmente.
Dra. Martins: Acha que SCP-011-PT pode ter influenciado decisões particulares na sua vida, inconscientemente ou conscientemente?
Pesquisadora Júnior Vieira: Talvez, talvez não. Digo, teve a coisa do enredo mas acho que isso não acaba sendo—
Dra. Martins: Desculpe, mas poderia informar qual enredo seria esse, especificamente? Para o registro.
Pesquisadora Júnior Vieira: Era uma minissérie sobre uma freira e uma enfermeira ajudando grupos subversivos contra a ditadura militar, com a trama sendo sobre elas terem motivos conflitantes sobre o que era o certo e não. O enredo é relevante a algo? O que você quer saber é se eu tive alguma epifania, se virei lésbica do nada, algo do tipo, não?
Dra. Martins: Queremos saber se você sente que teve alguma mudança significativa na sua vida e se ela foi provida por SCP-011-PT.
Pesquisadora Júnior Vieira: Mas a que grau nós podemos definir isso como algo anômalo? A implantação de uma memória artificial é uma anomalia bem óbvia, claro, mas a influência das memórias em si não é algo que poderia ser notado com qualquer tipo de evento significativo na vida de uma mulher? Ou — ou de qualquer pessoa.
Dra. Martins: Bem. Apesar de percebermos essas tendências como um componente da anomalia, nunca afirmamos que é algo anômalo, em si. Você sabe que, como cientistas, nós temos a obrigação de citar fatos que possam ser ou não ser relevantes para nossos estudos.
Pesquisadora Júnior Vieira: Sim, eu entendo. Mas realmente, você não acha que… que isso poderia acontecer com qualquer outra coisa, qualquer outro tipo de memória que criasse um impacto no seu modo de pensar? Sobre vida, amor.
Pesquisadora Júnior Vieira: Digo, pense nas suas aspirações de quando era criança. Você não conheceu ninguém, ou viu algum filme ou alguma coisa que te levou a pensar 'poxa, em quero ser sei lá, veterinária. Poxa, tem tanta gente que morre de câncer, acho que vou virar cientista e descobrir a cura para câncer'.
Pesquisadora Júnior Vieira: E o mesmo para amor, também, como algum tipo de beleza inerente que nunca tivesse percebido, o básico de atração. Como alguém cria um 'tipo'? Desde loiras e morenas a… homens e mulheres. Eu não sei.
Dra. Martins: Eu não acho que estou seguindo sua linha de pensamento.
Pesquisadora Júnior Vieira: Só acho que…acho que os efeitos da anomalia não são inerentes da anomalia. Talvez nem sejam inerentes de algo marcante, em si. Acho que todas essas mulheres — inclusive eu, e você — possuem a capacidade de se tornarem mais felizes ou ambiciosas amando umas as outras. Não precisa nem ser algo exclusivo nem lésbico com todas as letras mas… dar prioridade à mulheres na vida, em geral. Isso só não é algo realmente pensado, pela maioria das pessoas.
Pesquisadora Júnior Vieira: Talvez o verdadeiro efeito desse scip não seja 'implantar' ideias, nem 'influenciar', mas 'sugerir'. Acho que a capacidade de amar já estava dentro de nós esse tempo todo e nós só seguimos o que foi sugerido, por vontade própria. E, sabe. Mesmo com dificuldades e tristezas nas nossas vidas, nossos relacionamentos particulares, somos mais felizes assim.
Dra. Martins: É algo interessante de se pensar, entretanto, você não acha que assumir algo assim, tão pessoal e subjetivo para mulheres como um todo é algo muito passional?
Pesquisadora Júnior Vieira: Huh, talvez. Mas eu estou cheia de paixão, Martins. E tenho certeza de que todas as outras mulheres também estariam, se experimentassem esse tipo de amor.
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Item nº: SCP-011-PT
Classe de Objeto: Euclídeo
Procedimentos Especiais de Contenção: SCP-011-PT deverá ser guarnecido e estudado apenas por funcionários do gênero masculino durante seu período ativo; em seu período inativo, as equipes de pesquisas e segurança podem incluir agentes de quaisquer gêneros; exceções à regra devem ser protocoladas imediatamente.
A área onde SCP-011-PT está localizado foi definida como uma área de Proteção Ambiental Permanente sob os cuidados de uma empresa particular fachada da Fundação, membros da equipe de contenção de SCP-011-PT devem referir-se aos protocolos do documento SCP-011-PT: Fleurs-de-Lys et amour.
Estudos entre as relações de SCP-011-PT com a biosfera local estão em andamento para determinar os possíveis efeitos colaterais da anomalia na natureza, mas atualmente crê-se que a biosfera de SCP-011-PT alheia aos itens citados neste documento não são afetados pelas características anômalas do objeto.
Devido a natureza de SCP-011-PT-4, a Fundação manterá contato com as principais autoridades e organizações de pesquisas astrônomicas documentando oficialmente a anomalia na eventualidade da ocorrência deste fenômeno observável. Caso testes futuros sejam necessários, protocolos extras de contenção e desinformação serão desenvolvidos conforme necessidade.
Descrição: SCP-011-PT é uma extensão hídrica perene de águas claras de ~60m², ~2.5m e ~1.2m de profundidade em seus pontos máximos e mínimos, localizada na Floresta Amazônica. Espécies de Victoria amazonica (Vitória-régia) podem ser observadas em sua superfície: SCP-011-PT-1-A e SCP-011-PT-2 designando as folhas, e as flores respectivamente.
SCP-011-PT-1-A são visualmente idênticas a contrapartes comuns mas são capazes de sustentar até 200kg de peso sobre suas superfícies. Quando uma entidade sobe em 1-A, o objeto começará a excretar uma camade de gelo negro de ~2 centímetros de espessura, de temperatura variável entre 14 ºF e 4 ºF (-10 ºC e -20 ºC) sobre a água em um raio de 1.5 metros de suas bordas. A composição química corresponde ao suco extraído de SCP-011-PT-1-B, e sofre fusão natural sob temperatura ambiente ou disrupções externas a partir do amanhecer; durante a noite, é autopreservada.
SCP-011-PT-1-B são lírios d'água que exalam uma fragrância adocicada, florescendo apenas durante o período ativo de SCP-011-PT, apresentando incandescência azulada não-obstante a sua pigmentação natural branca e/ou rosácea, possuindo uma temperatura entre 32 ºF e 14 ºF (0 ºC e -10 ºC). Estas instâncias não atraem Cyclocephala castanea (besouros polinizadores). Apesar de não possuir posar como uma ameaça física, é teorizado que SCP-011-PT-1-B utiliza sua estética e aroma para atrair indivíduos afim de causar um evento SCP-011-PT-2.
SCP-011-PT-1-A e -B não apresentarão características anômalas se forem retirados de SCP-011-PT mas recuperarão-nas caso sejam introduzidas em SCP-011-PT novamente; as substâncias produzidas e/ou derivadas destas instâncias são atóxicas em quaisquer circunstâncias.
SCP-011-PT possui um período ativo, denominado SCP-011-PT-2, que ocorre entre os meses de Março e Julho, onde o reflexo especular de sua superfície é notavelmente mais nítido e incandescente enquanto reflete corpos celestes durante a noite (das 18 horas até as 6 horas do fuso GMT-4), sendo o intervalo em que as atividade anômalas intensificam-se. Este efeito de espelhamento celeste ocorrerá independentemente das condições climáticas atuais.
SCP-011-PT-2 não ocorrerá caso os exemplares de SCP-011-PT-1-A sejam removidas de SCP-011-PT; novos exemplares irão se desenvolver no local de maneira natural se SCP-011-PT-1-B não for removido; se ambos os componentes forem removidos de SCP-011-PT, eles reaparecerão de maneira espontânea no local após um período variável de tempo.
Instâncias alheias de Victoria amazonia introduzidas em SCP-011-PT não apresentarão características anômalas; instâncias híbridas de SCP-011-PT-1 e Victoria amazonia não anômalas apresentarão características anômalas em qualquer corpo hídrico que forem introduzidas, sendo capazes de ativar eventos SCP-011-PT-2.
Durante o evento SCP-011-PT-2, qualquer indivíduo do gênero feminino que repouse sobre a área congelada por SCP-011-PT-1-A desaparecerá, por meios desconhecidos, intermitentemente até o final do mês de Julho, sendo assim designado como uma instância SCP-011-PT-3.
Instâncias de SCP-011-PT-3 entrevistadas relatam experiências comparáveis ao estado REM de sono durante o período entre Março e Julho; suas descrições podem ser generalizadas como "uma noite de sono revigorante", com a qualidade das avaliações sendo exponenciais ao tempo empreendido raptado pela anomalia. Após este ínterim o indivíduo reaparecerá repousando sobre uma das vitórias-régias presentes sobre SCP-011-PT com seu estado físico inalterado, vestindo e carregando os pertencentes com os quais desapareceram.
Indivíduos SCP-011-PT-3 apresentam diversas mudanças relevantes nos quesitos comportamentais, emocionais e habituais em 92% dos casos observados pós-experiência SCP-011-PT-2; estas mudanças são reevantes quando comparadas a seus perfis de personalidade pré-evento. Estas observações e relatos foram realizados durante um período de ~730 dias (~2 anos).
Adendo 011-PT-α: Excerto da documentação de mudanças relevantes pós-evento SCP-011-PT-2.
Indivíduos apresentam um aumento extraordinário de sua percepção em relação à autoimagem psicofísica e auto-estima de maneira positiva;
Aspirações positivas para com atividades envolvendo relacionamentos sociais;
Inclinação para o desenvolvimento pessoal;
Aumento de empatia romântico-afetiva em relação à objetos de afeição, não-obstante o gênero do indivíduo;
Aumento de interesse por desenvolver habilidades diversas;
- Em certos indivíduos que apresentam Distimia, o estágio da patalogia é reduzido drasticamente.
Além disto, instâncias de SCP-011-PT-3 apresentam memórias de um evento sem-precedentes, ou registro concreto em suas mentes que funcionará como um engodo para o gatilho destas mudanças relevantes.
Este evento é relatado como sendo algo profundamente significativo para o indivíduo, manifestando-se de maneira artística ou lúdica, normalmente numa situação cotidiana. Estas memórias apresentam características em comum:
- A presença de uma entidade metafórica;
- A presença de um elemento admirável, irresistíve e/ou inalcançável;
- A presença de uma ambição em estabelecer relações concretas entre entidades metafóricas (em certos casos, SCP-011-PT-2);
- A presença de um elemento de sacríficio (deliberado ou forçado) significativo de forma tangível ou intangível efetuado para efetivar a união entre as entidades relevantes;
- A presença de um viés mediador deste gatilho;
- A presença de uma/várias alegoria(s);
- A presença de símbolos (como faúna e flora) relacionados à noite, corpos celestes e corpos aquáticos.
Adendo 011-PT-β: Documentação de Testes e Entrevistas relevantes.
Entrevistadora: Dra. Martins
Entrevistada: D-01121
Prefácio: D-01121 participou de testes com SCP-PT dia x/y/z, 1,6 anos antes desta entrevista. D-01121 foi condenada a 20 anos de prisão por participar de uma quadrilha de tráfico de cannabis como mula de transporte.
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Dra. Martins: Você sente que teve alguma mudança geral ou significativa na sua vida, nos últimos anos desde que viajou para a Amazônia?
D-01121: Uh, não sei, doutora, fora ler e malhar eu sei lá, acho que tô mais tranquila, em geral. Desde um tempo pra cá eu me sinto mais otimista sobre estar presa e tudo mais, quando eu cumprir meu tempo eu vou tentar meu melhor pra ficar na linha. [pausa] Respondi certo?
Dra. Martins: Por acaso sentiu algum tipo de inspiração, algo que te incentivou com essas tarefas?
D-01121: Olha, ficar presa é meio que um porre, né, se você ficar parada a sua mente te mata. Sei lá, se for pra dizer o que me fez uh, malhar mais, eu diria que foram as meninas do Setor 7.
D-01121: Não sei o que vocês põe no almoço delas que elas ficam com uns braços maiores que a minha cabeça. É sério, doutora, me dá essa bomba aí. Eu sei que já sou boazona porque tipo, olha esse popozão todo fit, mas eu toparia virar um Frankestein pra ganhar uns braços massudos daqueles. [risos]
Dra. Martins: Compreendo. Você mencionou 'ler mais', antes, isso também foi inspirado por algo?
D-01121: Um. Não que lembre, não é como se um dia eu tivesse acordado e pensado "Que dia bonito, hoje é que eu paro de ser abestada".
D-01121: Não, espera, teve algo sim. Eu não lembro bem quando, mas eu comecei a lembrar bastante de quando eu tinha uns 14, acho, e tava ouvindo rádio na varanda enquanto varria pra minha vó e tocou uma música meio MPB, de uma cantora com uma voz baixinha.
D-01121: A música era ela tentando falar com uma coruja, dizendo que ia cantar em toda língua que existe até ela responder mas nada funcionava, e, ela acaba gritando tanto, mas tanto de tristeza, que acaba com a própria voz. Aí bem no finalzinho da música o passarinho responde ela e ensina ela a assoviar, e termina com as duas assoviando juntas.
D-01121: Tinha um verso como, "Corujinha, minha amiga, eu te vi e me apaixonei, Hello, Bonjour, Entschuldigung. Mas você finge que não me vê, não me responde nem quer saber". Eu lembrei dessas partes com palavra estrangeira na música e não sei, senti vontade de aprender mais coisa, em geral.
Dra. Martins: Você lembra do nome da música, cantora ou da estação?
D-01121: Puxa, quem dera, sempre que eu tento lembrar dá um branco. Acho que já perguntei pra todo mundo que eu contei sobre ela, mas não sei, não deve ter grudado na época. Eu mesma não lembro de ter ouvido mais de uma vez.
D-01121: Ah, doutora, sobre a coisa de inspiração eu devia ter falado da Marcela também.
Dra. Martins: Marcela?
D-01121: É.
D-01121: Sabe, doutora, eu não fui alfabetizada quando eu era criança. Eu tive que fazer serviço em casa de parente desde jovem, aí parente virou patroa, patroa virou a coisa da erva, você sabe a ficha.
D-01121: Eu brinquei antes dizendo que era abestada, mas, tipo, eu nunca me senti mais inferior que alguém que foi pra escola. Minha vó sempre me disse que esperteza vem da vida, sabe, de suar e aprender na marra, e foi assim que eu soube como — como me virar, conversando e ouvindo. Eu sei que sou mais esperta que umas madames que nunca foram humilhadas, nunca esfregaram um chão com uma escovinha de dente pra não passar fome.
D-01121: Mas ficando aqui e no outro setor, eu conheci muita gente, gente que me deu vontade de ser uma pessoa mais realizada, mais mente aberta. Conhece uma menina meio magricela alta, do 4, a de óculos? Então, essa é a Marcela. Ela é minha amigona.
D-01121: Eu conheço ela faz o que, um ano, por aí. Quando ela chegou aqui já tinha cumprido uns 10, mas veio sozinha, não chegava muito com o pessoal, esse tipo de coisa.
D-01121: Então, eu via ela na dela e não sei, deu vontade de me aproximar, dar o primeiro passo que ninguém dava. E tipo, a gente batia um papinho básico, mas ela era de outro nível, ela ficava tentando falar de uns livros lá que ela lia porque frequentava muito a biblioteca, muito mesmo, mas eu ficava tão nervosa com aquelas coisas filosóficas que eu começava a rir e falava "Porra, Marcela, fala minha língua, cara!" [risos]
D-01121: Mas tipo, eu não queria me afastar dela, sabe.
D-01121: Eu acho a história de vida dela muito tocante. Ela passou por muita coisa pesada na vida, teve que fazer coisa pra gente esquisita igual eu mas acabou viciada em pedra e acabou presa. Disse que tava tão desesperada que tentou roubar um mercado com uma peixeira e cortou fora dedo de um guarda, doido. Ela tenta falar com o filho dela na Bahia, que deve já estar com uns 25 mas ele não responde, isso deixa ela muito magoada.
D-01121: [pausa] Sabe essa história da peixeira, ela conta pros outros rindo mas quando você conhece ela de verdade, dá pra ver que ela sente vergonha disso. Eu acho que muitas das garotas aqui que ficam se gabando de ter roubado fulano e matado sicrano tem um peso escondido, na alma mesmo, que elas tem vergonha de admitir a Deus.
D-01121: Mas então, eu não queria deixar ela meio excluída de novo só porque a gente não se entendia direito, né. Então um dia eu falei pra ela, "Porra, cara, e se eu entrar no cursinho que eles dão aqui? Aí eu ia entender tua língua mais".
D-01121: Eu tava esperando ela rir da minha cara, mas ela ficou animada. Ficou dizendo que ia me ajudar, ia testar o que eu aprendesse, e sabe, isso foi uma força enorme. Eu sozinha me esforcei pra cacete, mas foi muita moral que ela me deu. Consegui tirar meu diploma em 10 meses, leio de tudo, discuto coisa complexa com a Marcela e com o outro pessoal que passa na biblioteca. Desde que me eduquei eu sinto que sou uma mulher muito mais realizada, mais guerreira.
Dra. Martins: Isso é ótimo. Você parece admirar bastante [Marcela].
D-01121: Falando assim acho que parece mesmo [risos]. Pra ser sincera eu sou meio fechada em me expressar, mas pra ela eu digo na cara dela mesmo que ela é um mulherão da porra, porque é verdade! Ela não me diz quanto falta pra ela cumprir o tempo dela, mas eu já disse pra ela "Cara, se eu sair antes eu juro que te espero lá fora", porque eu quero dar força pra ela falar com o menino dela, com o passarinho dela na Bahia. E se não der eu dou força de qualquer jeito que eu conseguir, porque quero ajudar ela a subir na vida, continuar limpa, essas coisas. Talvez até morar juntas pra uma ficar de olho na outra, dividir uma kitnet. Eu acho que devo isso pra ela, dar um apoio como ela me deu.
[Finalizar Registro]
SCP-011-PT-4 é um corpo celeste que aparecerá nas proximidades imediatadas da Lua terrestre como um corpo satélite; uma instância deste objeto se formará espontâneamente após um indivíduo SCP-011-PT-3 passar por um evento SCP-011-PT-2. SCP-011-PT-4 é um fenômeno observável temporário que expirará no final de Julho, coincindindo com o reaparecimento de instâncias de SCP-011-PT-3.
Embora observável, indícios físicos da existência de instâncias de SCP-011-PT-4, além do ponto geográfico aproximado de sua localidade, não podem ser assertidos, visto que o objeto apesar de exibir características similares, como a emissão de luz e uma composição química aproximada a de uma estrela, não possui gravidade própria, nem interfere de maneira tangível numa escala correspondente à aparição repentina de uma estrela.
Relatório de Descoberta e Recuperação: Incidentes envolvendo turistas desaparecendo na região entre os meses de Março e Julho após interagirem com SCP-011-PT, num lago com "vitórias-régias criando gelo, e lírios fluorescentes" chamaram a atenção da Fundação para a atividade anômala na região.
SCP-011-PT foi documentado pela primeira vez em 18██ datada a época de anexação da região Amazônica como a Província do Amazonas pelo governo do Brasil Império. Durante a exploração capital da região, um grupo de exploradores encontrou o local onde SCP-011-PT se encontra, notando as características anômalas de SCP-011-PT-1, até a interferência pelo Conservatório Real de Estudos do Anômalo do Império do Brasil, assumindo as operações de pesquisa no local pelos anos conseguintes.
A recuperação dos documentos deste GdI, dentre estes, arquivos referindo-se a SCP-011-PT; as leituras destes documentos levam a crer que a compreensão sobre este objeto pelo grupo de interesse era extremamente escassa no viés que o estudo da anomalia foi abandonado pouco tempo depois.
Prefácio: Teste realizado entre 20:45 e 21:10 (GMT-4) em quinze de Junho de 20██. Descoberta de evento SCP-011-PT-2. Um indivíduo de Classe-D foi escolhido para realizar os experimentos. A participante era fisicamente ativa e capaz de nadar. D-01105 foi equipada com um colete de flutuação como medida de precaução, uma escuta eletrônica com transmissão e recepção de voz à prova d'água; as gravações foram feitas por meio de um drone.
- D-01105 de 28 anos, condenada por porte ilegal de armas; atestada psicologicamente capaz, sem apresentar quaisquer patologias psicofísicas. Apesar disto, apresentava baixa auto-estima e recusava-se a participar em atividades recreativas ou manter relações com particulares/outros membros, salvo seu relacionamento com sua colega de alojamento D-01104 e as sessões privativas de ginástica facultativa, durante todo o período em custódia da Fundação antes de tornar-se uma instância de SCP-011-PT-3.
[Iniciar Registro]
Dr. Oliveira: Muito bem. Você consegue nos ouvir, D-01104? Podemos lhe ver.
D-01104: Oi. Tô ouvindo você, doutor.
Neste momento, D-01104 estava às margens de SCP-011-PT.
Dr. Oliveira: Perfeito. Podemos começar então, por favor tente subir na vitória-régia a sua frente.
D-01104: Vocês têm certeza mesmo que esse negócio não vai só despencar em baixo de mim, doutor?
Dr. Oliveira: Absoluta. Por favor, siga as instruções.
D-01104 pula em direção à vitória-régia mencionada, aterrisando em seu centro sem problemas de equilíbrio. Neste momento, as propriedades de SCP-011-1-A começam a manifestar-se.
D-01104: Opa! Como isso é possível? [D-01104 salta sobre a plataforma vegetal algumas vezes] Têm alguma coisa congelando a água, doutor. Era pra isso acontecer?
Dr. Oliveira: Sim. Por favor, mantenha-se no centro da vitória-régia até novas ordens.
D-01104: Beleza. Só uma pergunta, vou poder levar uma destas de volta? [D-01104 aponta na direção de uma instância de SCP-011-PT-1-A.]
Dr. Oliveira: Dependendo de sua performance. Não posso lhe prometer nada, D-01104. Você poderia descrever, e se possível, extrair uma amostra desta camada se formando sobre a água?
D-01104: Tudo bem, doutor.
D-01104 faz uma concha com suas mãos, tentando pegar um punhado da substância excretada por SCP-011-PT-1-A; ela quebra a superfície sólida após algumas tentativas. A substância começa a fundir-se após alguns segundos.
D-01104: Têm um cheiro bastante doce, mas é bem amarga. Parece aqueles sacolés de geladeira, doutor.
Dr. Oliveira: Notado. D-01104, você poderia pisar sobre a camada formada?
D-01104: Ãhm? Certo, doutor.
D-01104 situa-se sobre a camada excretada por SCP-011-PT-1-B; desaparecendo imediatamente no momento em que ambos os seus pés repousam, de acordo com o estudo de filmagens. A comunicação é perdida, encerrando os testes.
D-01104 foi encontrada após um período intermitente de 45 dias após o incidente, repousando sobre uma das instâncias de SCP-011-PT-1-A no local as 6:30 (GMT-4). Custódia do indivíduo foi recuperada, e D-01104 foi questionada, e monitorada após o incidente, apresentando melhoras relevantes ao quadro de instâncias de SCP-011-PT-3, principalmente no viés de relações inter e intrapessoais. A documentação compreensiva pode ser acessada nos arquivos extendidos de SCP-011-PT.
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Propostas gerais:
- SCP de múltiplos componentes;
SCP-X, o objeto em sí;
SCP-X-2, denominando as instâncias de Waterlilies
SCP-X-3, denominando a eventualidade de ativação e seus efeitos anômalos;
SCP-X-4-e -5, duas entidades, simbolizando a Lua, e Naiá respectivamente;
- Evento passível de ativação apenas por humanos do sexo feminino;
- Evento passível de ativação apenas no período entre março e julho;
- Efeito memético/cognitivo (?) na forma de uma espécie de obsessão/adoração pela Lua;
- Evento envolvendo corpos celestiais, especificamente estrelas;
- Relações gerais com as victórias-régias;
SCP-X localizado numa região da Amazônia;
Flores apresentam características anômalas (?) pela fragrância, ou uso da tintura criada com a flor;
Victórias-régias apresentam características anômalas (?) suportando mais peso distribuido;
- Relações gerais com a água/céu;
Durante a noite, o espelho d'água refletirá estrelas e a Lua independentemente das condições climáticas;
Proposta 1
- Semi-literação da lenda, apresentando-a em formato SCP como um evento anômalo;

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